Grego



Só mesmo na era da imbecilidade orgulhosa e do culto à ignorância um pronunciamento tão lógico pode causar discussão. Nenhum ser com mínima contagem neuronal deveria ser capaz de argumentar contra a posição de um time de futebol de não entrar em campo se receber pedradas na chegada ao estádio. Esqueça, por um instante, de qual clube se trata (Corinthians) e quem foi o dirigente (Andrés Sanchez) que anunciou a postura. No lugar da discórdia, por mínima que seja, um tema dessa natureza deveria reunir opiniões em torno do que se deseja para o que pertence a todos. O problema é que o futebol, como a política e a religião, cada vez menos consegue aglutinar. As diferenças se tornaram intransponíveis num ambiente que ultrapassou, já há algum tempo, a linha da inabitabilidade.

Quando o ônibus do Boca Juniors foi alvejado a caminho de Núñez, em novembro passado, cretinos responsáveis pela insalubridade das redes antissociais insistiam que a suspensão da partida era um exagero por dois motivos principais: 1) nenhum futebolista tinha se ferido com gravidade; e 2) não jogar significaria “a vitória dos vândalos”. O primeiro “argumento” é obsceno e deve ser ignorado. O segundo é uma tentativa desavergonhada de demonstrar repulsa – falsa, claro – a esse tipo de episódio, como se a tese da necessidade da continuação do espetáculo tivesse, ao longo de tantos e tantos casos, solucionado alguma coisa. Não, a recusa do futebol a conviver com a violência não seria a vitória dos vândalos. A própria existência dessa linha de “raciocínio”, é.

De modo que a vitória já aconteceu e é celebrada diariamente, como na noite de quarta-feira, quando bandidos apedrejaram o ônibus do atual campeão brasileiro nas proximidades do Allianz Parque. A descoberta de mensagens nos celulares dos animais sobre novas emboscadas apenas eleva o nível de choque diante de um evento que não faz sentido nem mesmo sob os padrões nacionais de selvageria de torcidas. É claro, como se comprovou, que a questão extrapola o futebol e alcança o território da criminalidade, mas o ponto central aqui é a escalada de um comportamento doentio que revela o suficiente sobre esses tempos. A notícia de que os jogadores palmeirenses estavam indignados – alguns choravam – e cogitavam não atuar contra o Junior Barranquilla gerou a idiotia de sempre: os milionários sensíveis nem se machucaram e não têm qualquer motivo para deixar de cumprir sua obrigação.

A noção de que futebolistas profissionais devem se submeter a ameaças e até agressões, pois afinal são muito bem remunerados e privilegiados em uma sociedade caracterizada por desigualdades, é um antigo exercício de estupidez. Revela-se em seu esplendor em atos de vandalismo como se passou com o Palmeiras, mas faz parte da maneira como o futebol é vivido nas ruas e até como é discutido nos meios de comunicação, imagens atualmente quase idênticas. E decorre da ideia – igualmente estúpida, mas potente e disseminada – de que o futebol é um mundo sem limites em que toda a sorte de condutas inaceitáveis, mais do que permitidas, são justificadas pelo que se venha a chamar de “paixão”. Começa com a autorização para que crianças ofendam pessoas em nome do amor clubístico, como se o futebol não pudesse ser experimentado sem ódio.

Daí a classificar como “frescura” o aviso do Corinthians sobre a chegada ao Morumbi é automático, pois quem se alimenta de futebol raivoso simplesmente não tolera básicas noções de educação e respeito relacionadas ao jogo, e jamais será capaz de compreender que a boa convivência entre clubes não deveria sofrer influência da rivalidade. “Prefiro vencer a derrotar”, disse, um dia, César Luis Menotti. É grego para imbecis.



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