Ganhar perdendo



No futebol, é quando se perde que as atuações coletivas passam por um exame mais rigoroso. Um dos mistérios apaixonantes do jogo é permitir, por vezes, uma desconexão intrigante entre o resultado e o desempenho, motivo pelo qual é obrigatório compreender o que restou – se é que restou algo – após uma jornada frustrante. A noite de segunda-feira passada foi uma ocasião ilustrativa para este propósito, porque ambos os times perderam. O Corinthians foi derrotado na partida. O Santos, nos pênaltis. Após dois jogos, o time que deixou a melhor imagem em campo está eliminado, evento pouco frequente em confrontos dessa natureza.

Raras vezes a temporada no Brasil mostrou um caso de tamanha imposição de um time sobre outro, a ponto de converter as referências estatísticas (68% de posse, 22 x 3 em finalizações, 14 x 0 em escanteios) nos elementos menos impressionantes para efeito de análise. Foi a maneira como o Santos se apropriou da bola e da metade do gramado defendida pelo Corinthians que ficará na memória de quem acompanhou o jogo, sem esquecer que do outro lado estava uma equipe que tinha sido superior ao time dirigido por Jorge Sampaoli nos dois encontros anteriores. Nenhum deles, no entanto, se aproximou do monólogo apresentado no Pacaembu.

Os dois zagueiros santistas ocuparam posições extremamente avançadas dentro do território corintiano, protegidos por um meio-campista defensivo e os dois laterais posicionados por dentro, de forma a fechar a saída da bola e pressionar agressivamente após qualquer perda. Na frente, pisando na área de Cássio, cinco jogadores de branco em constante intercâmbio de posições tornaram longa a noite da defesa do Corinthians. Não se deve ignorar a resposta notavelmente abaixo do que se esperava do time de Carille, mas não há dúvida sobre os aspectos determinantes para a vitória santista em noventa minutos: o plano desenhado por Sampaoli e a maneira como os jogadores do Santos se dedicaram a aplicá-lo.

A injustiça no jogo de futebol só se explica pela ocorrência de fatos importantes proibidos pela regra, como um gol ilegal confirmado por falha da arbitragem. Embora seja lógico afirmar que o Santos jogou para construir a vantagem que lhe permitiria prosseguir sem a necessidade de penalidades, é igualmente evidente que o 1 x 0 prevaleceu pela soma de virtudes e defeitos dos dois times em campo. De onde se conclui que a “classificação sem mérito” do Corinthians é uma ideia absolutamente sem sentido. O Santos venceu. Os pênaltis constituem outra competição, na qual dois santistas falharam. O futebol não perde nada com esse desfecho. Ao contrário, foi uma noite de jogo exuberante.



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