Enganos



Proposta de exercício: na próxima vez em que seu time iniciar um jogo importante, calcule quanto tempo você levará para identificar o posicionamento e a ideia de competição do adversário. Se levar alguns minutos, mesmo com o benefício dos ângulos da transmissão de televisão, pense em como esse intervalo pode influir na tarefa do(s) treinador(es), que precisa(m) fazer essa leitura o quanto antes e tomar providências conforme as conclusões. Se os técnicos, especializados no assunto e teoricamente preparados para as surpresas que possam aparecer, por vezes demoram a respondê-las com ajustes, supõe-se que escalações diferentes das esperadas ou jogadores posicionados em regiões distintas das habituais têm impacto direto no equilíbrio de partidas.

O tema sempre volta ao debate quando um técnico decide fechar uma sessão de treinamentos para trabalhar com privacidade, medida que no Brasil ainda se enxerga como “notícia”. Fábio Carille, alguém que não costuma agir dessa forma, justificou a decisão de não permitir o acesso ao treino do Corinthians neste sábado, por se considerar traído pela revelação de informações sobre seu time a técnicos oponentes. Carille se referiu a ações de bola parada, obviamente ensaiadas para surpreender, situações em que a simples disposição de jogadores na área é suficiente para indicar o que se pretende. Não é por outro motivo que, quando treinadores pedem para que as câmeras sejam desligadas – ou retiradas – durante uma determinada parte do trabalho, é justamente para fazer as repetições desse tipo de jogada. Também não é por outro motivo que essas informações são as mais relevantes para os “espiões”.

Marcelo Bielsa explica sua posição de fechar treinos com dois conceitos principais. Um é de ambiente: a liberdade para usar um determinado tipo de linguagem com jogadores, sem que se tenha de lidar com a repercussão negativa que a exposição pública certamente causaria. O outro é técnico: jogadores submetidos a sessões intensas, com frequente déficit de oxigênio, estão mais propensos ao erro e precisam ser corrigidos para que se condicionem. Neste cenário, a presença de pessoas estranhas ao trabalho pode gerar constrangimento e comprometer os objetivos do treinamento. Importante lembrar que o técnico argentino valoriza tanto a rotina semanal que recentemente esteve envolvido em um pequeno escândalo de espionagem de adversários na Inglaterra, um comportamento criticável sob qualquer aspecto.

Nos centros onde o futebol se encontra em estágio mais avançado, os treinos com presença de repórteres são ocasiões raras. A permissão para o registro de imagens é concedida poucas vezes durante a temporada, o oposto do que se dá no futebol brasileiro. Enquanto é válido mencionar as diferenças de costume e os benefícios que essa divulgação significa para os clubes e as marcas que a eles se associam, é necessário observar que o jogo jogado dentro de campo impõe as mesmas dificuldades e exigências em todos os lugares. Técnicos sempre estarão à procura de mínimas margens de vantagem sobre seus competidores, pois, em última análise, serão julgados por esse balanço de sucesso e fracasso. Isso não torna a cobertura dos meios de comunicação menos importante ou descartável, é apenas a demarcação clara dos principais interesses de cada lado.

E que não reste dúvida sobre a utilidade do segredo. O próprio Carille tem um histórico de surpresas bem aplicadas em clássicos, como, por exemplo, no dia em que escalou o Corinthians com uma linha de quatro jogadores avançados contra o Palmeiras em Itaquera. Ou mesmo no zero a zero contra o Santos, quando usou pressão adiantada e impediu o time dirigido por Jorge Sampaoli de sair pelo lado preferido. No reencontro de segunda-feira, é muito provável que cada técnico tenha uma ou outra novidade a apresentar. O futebol também é feito de engano, às vezes antes mesmo do jogo começar.



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