Time que treina



A vitória do Athletico (o termo “paranaense” ou a sigla do estado após o nome do clube se tornaram desnecessários após a alteração) sobre o Boca Juniors não foi apenas um tremendo resultado, produto de uma atuação formidável. Foi mais uma estocada na inutilidade que atrasa o futebol brasileiro, viabilizada pela subserviência dos clubes aos cartórios da bola, as federações estaduais. Ao dedicar ao campeonato paranaense a pouca relevância que merece, o Athletico passou a ser um time que treina, o que faz toda a diferença num ambiente em que a preparação para competir se tornou um luxo.

A noção de que times jogam como treinam adquire um sentido diferente a partir do momento em que a pré-temporada inexiste e o calendário impõe a simples recuperação de jogadores no intervalo entre partidas. Quando muito, técnicos ensaiam o que pretendem, durante trabalhos que não podem se aproximar da intensidade necessária, pois é preciso escolher entre treinar e jogar bem. Os clubes privilegiados em orçamento recorrem a elencos maiores, que oferecem a formação de equipes quase inteiramente diferentes conforme os objetivos, única forma de dividir o peso de uma temporada insana sobre as pernas dos futebolistas.

Já o Athletico exercita o que o orçamento não pode comprar: a coragem. Retirar o campeonato estadual da programação do elenco principal cobra, além dos incômodos institucionais e políticos, a taxa da falta de ritmo no início, mas propicia o lucro de encarar cada encontro significativo com a preparação adequada em todos os aspectos: da concentração à parte física, passando por sessões de treinamento que reproduzem jogos e efetivamente condicionam o time para tarefas específicas. A vitória sobre o Boca revelou uma equipe em esplendor – para o momento – em cada faceta de uma partida de futebol, deixando uma imagem que se distancia do que os demais times brasileiros têm exibido.

Após a temporada de 2018, Tiago Nunes falou sobre a personalidade mutante de seu time, pronto a ativar posturas diferentes de acordo com local, adversário e circunstâncias. Uma equipe que sai de seu campo com elaboração, desarma perto da área adversária, acelera a partir da intermediária ofensiva e fere em ações de bola parada. O Boca Juniors foi vítima dessas ideias anteontem, impotente, por momentos, diante de tanta volúpia. Uma equipe assim é construída enquanto ninguém está olhando, e enquanto os clubes que compartilham os mesmos objetivos estão envolvidos em jogos que valem pouco, ou nada.



MaisRecentes

Não é patinação



Continue Lendo

Hierárquico



Continue Lendo

Incontrolável



Continue Lendo