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“Quero ver trabalhar no Paulistão”, diz-se, tantas vezes, sobre treinadores não nascidos no Brasil que recebem elogios pelo que fazem em centros onde o futebol se encontra em estágio avançado. Especialmente aqueles mais aplaudidos pelo jogo exibido por seus times do que pelo currículo que ostentam. É irresistível a tentação de supervalorizar o dinheiro e as condições, atribuindo a esses aspectos um certo tipo de futebol supostamente inatingível onde as dificuldades são maiores e os orçamentos, modestos. Aqueles com menor domínio do tema, e cujos sentimentos por algum motivo estranho se ferem quando expostos a um jogo que não seja mais do mesmo, costumam traduzir a ideia acima com algo mais direto: “com esse time, até eu”, bradam ao redor das mesas e nas profundezas das redes antissociais, por vezes representados – ou alimentados – por vozes “da mídia” a serviço do popularesco.

Não se sabe se Jorge Sampaoli foi informado sobre esse “conceito” em sua trajetória até desembarcar em Santos. Embora as reações ao padrão de futebol que ele de certa forma representa sejam diversas e a ignorância alheia certamente tenha cruzado seu caminho, é possível que o técnico argentino não tenha conhecimento da “linha de raciocínio” que estabelece o campeonato estadual de São Paulo como um parâmetro de excelência, ou mesmo uma etapa a cumprir na escada de ascensão na profissão. O que não deve ser confundido com a qualidade do futebol que jogadores (num plano internacional) e times brasileiros são capazes de produzir, uma verdade indiscutível conhecida e admirada mundo afora. Quando trabalhava no Chile, Sampaoli enfrentou clubes e a seleção do Brasil. Agora, ele ilustra a frase que abre este texto, com todos os elementos que caracterizam a experiência.

Como já se escreveu aqui, o “treinador estrangeiro” é uma das três espécies reconhecidas pelos especialistas na matéria. É como se fossem todos iguais em personalidade e ideias, proponentes do mesmo jogo, independentemente de origem, formação e carreira. No Brasil, recebem o mesmo tratamento: a exigência de resultados ainda mais precoces, a necessidade de mostrar que são melhores do que “os nossos”, a torcida pelo fracasso que permitirá a propagação de preciosidades como “aqui a conversa é diferente”, seguidas da gargalhada que celebra a falsa vitória da indústria nacional. Ricardo Gareca e Juan Carlos Osorio assim foram recebidos, e o mesmo se deu com Reinaldo Rueda, que teve um pouco mais de sorte até resolver – numa decisão que pode ser criticada – ir trabalhar em outro lugar. Sampaoli se difere deles por ter dirigido times na elite da elite do futebol de clubes e na Copa do Mundo (antes de chegar ao Brasil), qualificações que, claro, fazem com que seja examinado com maior rigor.

No Santos, lidou com os dramas que atrapalham a vida dos colegas locais: da perda repentina de jogadores – apenas Gabriel Gol e Bruno Henrique, que não foram para a Europa, mas para um rival de competições nacionais, bastam para exemplificar – ao costume dos salários atrasados. Seu time logo adquiriu personalidade própria e raramente deixou de jogar futebol para a frente ou buscar o que é agradável aos olhos. Mas o maior elogio à sua presença ficou evidente após o par de vezes em que sofreu derrotas feias: o júbilo da mediocridade e a imediata redução de seu trabalho a um resultado desagradável, ou dois. Sampaoli não precisa de um bônus de compreensão por não ser brasileiro; a análise, que segue pecando pelo extremo imediatismo, deve enxergar a todos com respeito pelo processo de montagem de equipes.

A leitura não pode ser feita antes de uma temporada completa, um luxo. Mas os adeptos do “quero ver trabalhar no Paulistão” estarão, novamente, equivocados se pedirem o título ao Santos como condição para estender a mão a Jorge Sampaoli. A frase não se refere a conquistas, mas à adaptação e ao nível do que é exibido a cada jogo. Sampaoli está trabalhando, e bem.



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