Dicionário



As dificuldades para tratar do jogo de futebol são tamanhas que há ocasiões em que qualquer desvio, por mais insignificante que seja, se torna sedutor demais para ser ignorado. Aconteceu nos últimos dias, quando a péssima atuação da seleção brasileira contra o Panamá deu origem a um debate requentado sobre terminologia. Até nessa área do jogo impera o resultadismo: tivesse o Brasil vencido por 5 x 0, Tite poderia ter dado uma entrevista coletiva inteira em catalão e ninguém se importaria. Provavelmente seria aplaudido.

O “titês” não é novidade, certo? É a identidade verbal de um treinador que respeita a dinâmica de perguntas e respostas e se esmera para explicar o que pensa. Nem sempre dá certo, seja por exagero num jeito de falar caracterizado por termos habituais dentro do jogo, porém estranhos ao ambiente externo, seja porque a vontade de compreendê-lo inexiste em diversas partes. Poderia ser diferente, mas não seria autêntico, e aqueles que se incomodam tanto com o assunto o criticariam – exceto se o desempenho do time fosse bom, claro – por tentar aparentar o que não é.

Se tanto, o dever de “traduzir” o discurso do técnico da seleção é de quem trabalha entre ele e o público, mas para isso é necessário transitar pelo jogo e o terreno se mostra desafiador. O idioma em questão é composto de elementos pessoais, como é natural para todos, mas também oferece conceitos futebolísticos frequentemente formulados em outras línguas: um duplo problema para as tarefas de compreender e explicar. Mas basta querer. As escolas de futebol cujos vocabulários foram codificados em um estágio avançado – o que não significa mais importante – em relação à brasileira devem ser percebidas como aliadas, não inimigas.

A parte mais desnecessária da conversa é a sugestão de que o jeito de falar de Tite “o distancia” das pessoas, o que colaboraria para a frieza da relação entre o brasileiro e a seleção. Como se o treinador anterior, de diálogo duro, porém simples, fosse próximo do público ou seu time desfrutasse de uma convivência calorosa com a torcida. A temperatura sempre será determinada pela ótica do placar, com o chicote pronto a entrar em ação a cada decepção. O nível de antipatia de Tite depende basicamente da quantidade de gols marcados por seu time.

Dos últimos amistosos ficaram sinais preocupantes. O fato de Tite mencionar a arbitragem após o 1 x 1 com o Panamá é um deles. Os posicionamentos de Arthur e Firmino, outros. Mas aí é preciso tratar do jogo.



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