Visão



Foi do Flamengo uma das melhores atuações de um time brasileiro em duas rodadas de Copa Libertadores. Num ambiente tão favorável quanto exigente no Maracanã, a necessidade de se apresentar ao torneio continental – futebol a 4 mil metros de altitude não conta para nada em termos de análise – com um desempenho condizente com o que se espera foi alcançada até com alguma sobra, embora sempre haja defeitos a apontar e corrigir. Além do jogo convincente e da vitória merecida, o Flamengo que começa a se formar pelas mãos de Abel sugeriu uma questão interessante em termos de ideia de futebol, o que provavelmente será um tema ao longo da temporada por causa das características dos jogadores e dos planos do técnico.

No início do mês, Abel disse ao blog do jornalista Mauro Cezar Pereira (hospedado no portal Uol), com todas as letras, que pretendia alterar a maneira com a qual o Flamengo jogou nos últimos anos, em busca de um “futebol mais rápido”. O motivo pode estar relacionado apenas a preferências pessoais, ou talvez tenha sido tomada uma decisão interna de perseguir um título importante em 2019 praticando um jogo de defesa sólida e transição rápida, predominante no futebol brasileiro. O Fla-Flu de fevereiro testou e momentaneamente reprovou essa planificação, quando, após provocar o time de Fernando Diniz a vencer a seu modo, o Flamengo sofreu o gol decisivo nos acréscimos do segundo tempo. (memória: o Santos também não tentou discutir a posse com o Audax de Diniz na decisão do Campeonato Paulista de 2016, mas, diferentemente do Flamengo, teve sucesso na estratégia).

Tanto nas nuvens de Oruro quanto no aquecido Maracanã, porém, o melhor Flamengo foi aquele que se aproximou do desenho de 2018, reunindo talento e toque do meio para a frente, com Éverton Ribeiro aparecendo com destaque. O que indica um claro sentido de conforto coletivo partindo daquilo que os jogadores conhecem em termos de posicionamento e dinâmica. Especialmente na vitória sobre uma anêmica LDU, os gols construídos revelaram um time que se sente bem com a bola, numa noite de felicidade na procura de espaços e na finalização, melhor cenário possível para o modelo de elaboração e superioridade técnica que o Flamengo tentou aplicar nas temporadas recentes. Ao mesmo tempo, uma via até certo ponto óbvia, uma vez que o time equatoriano jamais cogitou se abrir e correr riscos.

Essa configuração se repetirá sempre que o Flamengo enfrentar adversários de nível inferior, em qualquer lugar, e na maioria das partidas no Maracanã, mesmo contra oponentes do mesmo pedigree. É curioso imaginar como o torcedor receberia outra postura semelhante à do Fla-Flu, ciente de que o time, por recurso humano e até mesmo por tradição, poderia – deveria? – optar por assumir o protagonismo e levar seu jogo ao campo do rival. Isso não significa ter apenas uma forma de atuar, já que determinadas ocasiões (particularmente fora de casa, diante de times que o atacarão) poderão pedir ao Flamengo o tipo de jogo com velocidade pelos lados que Abel visualiza. Ser capaz de alterar a própria personalidade durante as partidas, como fez o Athletico Paranaense na segunda metade do ano passado, é uma virtude necessária ao futebol atual, desde que, é claro, haja competência para tanto.

É possível que, com a melhor das intenções, evidentemente, a mudança idealizada por Abel seja um conflito com a natureza de seu grupo de jogadores. Neste caso, o trabalho estaria na qualificação e no aperfeiçoamento do que o Flamengo tenta ser há alguns anos, com a introdução de variações que o tornem mais perigoso conforme as circunstâncias. Mesmo considerando a fragilidade da LDU, a noite de quarta-feira pode ter sido uma visão do sucesso.



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