Vassoura



James Kerr, autor britânico que escreveu o livro “Legacy”, em 2013, provavelmente é o responsável por uma onda de boa atitude que atingiu o futebol sul-americano neste início de ano. Lançado no Brasil pela editora Benvirá sob o título “Legado – 15 lições de liderança que podemos aprender com o time de rugby All Blacks”, o livro é o produto da imersão de Kerr no cotidiano da seleção neozelandesa de rúgbi durante cinco semanas em 2010. Uma dessas lições é o costume de limpar o próprio vestiário após treinos e jogos, tal como os argentinos do Talleres fizeram no Morumbi, mês passado, quando eliminaram o São Paulo da Copa Libertadores. Como o Internacional fez no Chile, na quarta-feira. Como o Cruzeiro fez na Argentina, na quinta.

Os All Blacks não são apenas o time de rúgbi mais conhecido do mundo; são a equipe mais vencedora que existe neste patamar do esporte – qualquer esporte – profissional, com aproveitamento histórico de 77%. O uniforme preto que os caracteriza e os identifica até para quem não está familiarizado com essa modalidade representa não apenas excelência esportiva, mas uma cultura de respeito, responsabilidade e honra que transcende o jogo. Ser um all black não é fazer parte de uma determinada equipe, mas se conduzir como um determinado tipo de pessoa. São vastas as diferenças de comportamento que se verificam no rúgbi e no futebol, especialmente na relação de jogadores com os adversários e a arbitragem. Enquanto se deve aplaudir que a limpeza de vestiários se torne comum, seria formidável que fosse apenas o primeiro exemplo de uma influência positiva.

“Antes de sair do vestiário após os jogos, alguns dos nomes mais famosos do rúgbi – incluindo Richie McCaw, Dan Carter e Mils Muliana – param e limpam a sujeira que deixaram. Eles literalmente varrem o chão”, Kerr contou em um artigo publicado no diário britânico The Telegraph, em novembro de 2013. “Embora isso pareça estranho para um time de dominação imperiosa, a humildade é fundamental para a cultura deles. Os All Blacks acreditam que é impossível alcançar o sucesso estratosférico sem que seus pés estejam firmes no chão”, explicou. Importante salientar que não se trata apenas de deixar o vestiário nas mesmas condições em que ele foi encontrado (o que pode ser feito por funcionários); são os próprios jogadores que se encarregam desse trabalho.

Fica claro, portanto, que é uma questão de conduta. Os All Blacks a explicam por intermédio da frase “never be too big to do the small things that need to be done”: nunca seja tão grande a ponto de deixar de fazer as pequenas coisas que precisam ser feitas. Filosofia de vida aplicada ao esporte, em respeito aos valores que compõem o espírito de um time que não se distingue apenas no gramado, e que não ficam restritos ao ambiente coletivo. Quando não está a serviço do time nacional, cada all black varre a grama, os pedaços de esparadrapos e retira as garrafas de água dos vestiários após jogos entre clubes; o chão limpo é o sinal de que um jogador da seleção neozelandesa esteve ali.

A limpeza do vestiário também é um gesto de respeito ao adversário, consequentemente uma demonstração de respeito ao jogo, que está acima de todos. Mas quem a faz está, de fato, respeitando a si mesmo ao se portar com tal senso de responsabilidade. Outra frase que ajuda a compreender o jeito all black de ser é “leave the jersey in a better place” (em tradução livre: “leve a camisa a um lugar melhor”), mandamento que conecta todas as gerações que vestiram o uniforme preto ao longo dos tempos, voltando até os ancestrais dos jogadores atuais. Sim, o futebol está bem distante disso, é verdade. Mas nunca é tarde para entender que varrer o chão é apenas um signo de algo muito maior.



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