Jovem



Imagine um técnico de vinte e nove anos chegando a um clube brasileiro e solicitando a construção de uma torre de observação na linha lateral do campo de treinamentos, ao lado de um telão de 6x3m conectado a quatro câmeras para serem usadas durante os trabalhos. Imagine este técnico no andar mais alto da torre, controlando a exibição das imagens por meio de um iPad e as utilizando para corrigir posicionamentos dos jogadores enquanto treinam, como se estivesse em um palanque, discursando para observadores atentos. Apenas pense em uma cena como essa no Brasil, e tente calcular quantas vezes a pergunta “mas o que esse cara ganhou?” seria repetida do gramado aos corredores do clube, das mesas de debate às mesas de bar. Sem falar na potência da torcida por seu fracasso, para que os entusiastas da mediocridade se sintam confortáveis diante do que ignoram.

As sessões de treinamentos são exatamente assim no Hoffenheim, clube da Bundesliga, desde 2017. A ideia foi de Julian Nagelsmann, que assumiu o time quando tinha vinte e oito anos e o conduziu do pavor do rebaixamento à fase de grupos da Liga dos Campeões da Uefa. Os benefícios dos treinos filmados e analisados de uma posição mais alta são evidentes: o técnico enxerga o campo todo por um ângulo que favorece a leitura de posições, orientando os jogadores imediatamente, com auxílio do telão, sem que seja necessário levá-los para uma sala de vídeo após o trabalho. Os futebolistas dirigidos por Nagelsmann dizem que seus treinos os obrigam a pensar, o que obviamente não é uma referência sarcástica ao currículo do treinador, com quem ele chupou laranjas ou quantos troféus exibe em seu escritório.

A propósito, Nagelsmann jogou como zagueiro, mas não alcançou o futebol profissional. Lesões de joelho precipitaram o fim de sua carreira ainda na categoria sub-19, momento em que optou pela formação acadêmica em administração de empresas e ciência do esporte. A trajetória como técnico se iniciou no Augsburg, à época sob direção de Thomas Tuchel. O Hoffenheim lhe ofereceu um contrato de três temporadas em 2015, tornando-o, aos vinte e oito anos, o treinador mais jovem da história a comandar um clube da primeira divisão do campeonato alemão. Nagelsmann não fala alto, não tem “perfil motivador”, é viciado em tática e obcecado pelos mínimos detalhes. Trabalhar em um clube cujo dono é um empresário do ramo de tecnologia certamente colaborou para a aceitação de seus métodos, que, a partir da próxima temporada, estarão a serviço do RB Leipzig.

No Brasil, treinadores jovens têm sofrido duplamente com a “cultura do resultado”, impiedosa e permanente. A exigência não observa a data de nascimento ou o tamanho do portfólio, mas, especialmente para os que não foram jogadores profissionais, a desconfiança tende a se converter em abandono aos primeiros sinais de problemas. Falta suporte dos gabinetes para lidar com jogadores habituados a um modelo de autoridade baseado na estatura dos técnicos, embora, em certos casos, também falte tato para se posicionar nos momentos de dificuldade. Num ambiente que rotula treinadores em três categorias universais – o medalhão, o estudioso e o estrangeiro – a necessidade de vencer rápido e sempre, seja como for, penaliza quem ainda precisa construir seu caminho.

É o que Nagelsmann está fazendo, do alto de sua torre de observação e com um tablet na mão. Antes do acerto por quatro anos com o Leipzig, clubes de primeira grandeza dentro e fora da Alemanha se interessaram por sua forma de trabalhar. Em vez de fazer um movimento glamoroso, que poderia ser precipitado, ele optou por seguir em evolução gradual. Na Europa, fala-se sobre um técnico com rota para o topo desenhada e inevitável. No Brasil, a oitava posição do Hoffenheim na classificação da Bundesliga é a senha para a ironia despeitada. Afinal, com torre, iPad e telão… “esse Nagelsmann ganhou o quê?”.



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