Simulação



Nenhum pacote de modernização do futebol no Brasil terá efeito prático se não considerar alterações na programação de competições. Enquanto os clubes do país perderem jogadores convocados nas datas-Fifa e passarem quatro meses disputando os torneios menos relevantes do ano, certas ideias que, em si, fazem sentido, serão como esparadrapos sobre fraturas expostas. A CBF atua como benfeitora ao sugerir os “avanços”, ciente de que algumas propostas jamais serão aprovadas por aqueles que simplesmente deveriam determinar como as coisas funcionam: os clubes. A Supercopa, por exemplo, faz total sentido. Mas se trata de mais um jogo num ambiente de futebol em que não se treina, além de uma abertura oficial de temporada com disputa de um troféu simbólico entre equipes impedidas de se preparar adequadamente.

No Brasil, joga-se mal também porque se joga demais, e porque se começa a jogar muito cedo, para atender os interesses dos cartórios estaduais do futebol. É fácil notar a diferença de intensidade ao comparar jogos no Brasil com partidas realizadas na elite da elite; deveria ser igualmente fácil – até para a turma do “futebol é quarta e domingo” – calcular a diferença no número de atuações entre os times de lá e daqui. A pré-temporada é uma simulação, os clássicos nos estaduais geram pressão irracional no segundo mês do ano, os times se desfiguram a cada janela de transferências, e tudo explode no colo das comissões técnicas, obrigadas a adaptar o que a ciência ensina à realidade que desrespeita tudo, principalmente o jogo.

A propósito: o que mudou na questão do VAR desde aquela reunião em que a CBF apresentou um atestado de pobreza? Teria a tecnologia progredido tanto a ponto de baratear o custo do equipamento em um período de um ano? Ou será que a confederação subitamente se tornou uma entidade magnânima, quase filantrópica? De qualquer modo, a utilização do árbitro de vídeo em todos os jogos – não fosse assim, seria um contrassenso – do Campeonato Brasileiro de 2019 significará uma competição em que equívocos graves de arbitragem terão muito menos impacto nos resultados do que sempre tiveram, um passo mais do que suficiente para abrandar a impaciência dos que se incomodam com as revisões e/ou a paixão pelo erro do apito como fator de encantamento. O futebol é muito importante para ficar acorrentado ao atraso.

Mas se jogadores deixarem de atuar por seus clubes em partidas importantes porque estão servindo seleções em datas conhecidas com longa antecedência, o jogo seguirá estacionado no Brasil. E a cada crítica ao técnico da seleção brasileira como “o principal responsável” por tal aberração, um cartola de clube/federação reclinará a cadeira, abrirá o whatsapp e enviará emojis de gargalhadas para sua lista de contatos. Alguns celulares tremerão em um prédio imponente na Barra da Tijuca, celebrando o triunfo da estrutura de poder e influência que se sustenta com o passar do tempo, trocando nomes e mantendo métodos, enquanto o futebol sofre em silêncio.

DOCUMENTO

Após algum suspense com alta dose de ridículo, Jorge Sampaoli está apto a trabalhar como treinador no Brasil. A CBF aceitou a licença da Associação de Futebol da Argentina, cuja certificação para treinadores é uma das mais respeitadas no mundo. O curso argentino é aprovado nas ligas europeias, mas Sampaoli, por motivos curiosos, vinha comandando o Santos com uma licença provisória. Como se sabe, o técnico já dirigiu dois países na Copa do Mundo, trabalhou no Sevilla no futebol espanhol e na Liga dos Campeões da Uefa. É melhor para todos que a questão tenha sido encerrada. O objetivo da CBF deve ser a aceitação da sua certificação em outros países, para que técnicos brasileiros tenham mercado internacional e cresçam com a troca de conhecimento.



MaisRecentes

Enquanto isso, na NFL…



Continue Lendo

Visita Técnica



Continue Lendo

Não é patinação



Continue Lendo