Complexo



A estranha vocação do São Paulo para fabricar enigmas prosseguiu anteontem, com a nomeação de um técnico que não queria ser técnico, para ocupar a cadeira de um técnico que não pode ser técnico (imediatamente), substituindo um técnico que não foi demitido. O cenário parece algo desconectado da realidade, embora tenha se desenrolado diante de câmeras e microfones, apresentado por Leco e Raí como se fosse uma decisão trivial neste mundo dinâmico do futebol. Um mundo em que o que foi feito se desfaz em pouco tempo, e o que foi dito se desdiz com naturalidade. Num período de estiagem que se alonga, é intrigante que um clube que sempre se orgulhou da própria governança envie tantos sinais de desorientação, especialmente pela presença de alguém com a história, o nome e o preparo de Raí no comando.

De acordo com os planos, Vagner Mancini dirigirá a equipe por dois meses, enquanto Cuca termina um tratamento cardiológico. Pouco importa que, quando foi contratado, no início de janeiro, o agora ex-coordenador técnico tenha dito que não havia “a menor possibilidade de assumir [o time] em qualquer hipótese”. Àquela altura, o São Paulo acreditava na efetivação de um treinador formado na base e em um tipo de futebol mais elaborado e ofensivo. Deu tudo errado, porque André Jardine não teve suporte para se impor na transição para o time profissional, não teve jogadores para ao menos tentar aplicar o que se supõe ser sua ideia de jogo, e não teve sucesso em praticamente nada do que fez. Após o Talleres limpar o vestiário em que comemorou a classificação na Copa Libertadores, a diretoria são-paulina apertou o botão da reversão e encomendou um técnico que não precisa de crachá.

A medida pode fazer sentido considerando os jogadores que comandam o ambiente na Barra Funda, mas a ponte entre o treinador temporário e o definitivo é um convite para mais problemas. Mancini trabalhará conforme as próprias ideias ou atuará como um mero executor do que Cuca entende ser o melhor caminho? Se as coisas andarem mal, quem será o responsável? Se andarem bem, a quem caberá o mérito? Suponha, por um instante, que Mancini seja campeão paulista e Cuca sofra três derrotas seguidas no Campeonato Brasileiro. Se há um aspecto positivo é o da “estabilidade” de Mancini, que não poderá ser demitido por um prazo de sessenta dias. Cuca desfruta de proteção semelhante, já que não corre o risco de cair antes de assumir. Em uma gestão que terá seu décimo treinador quando abril chegar, dois meses garantidos precisam ser valorizados.

O último clube brasileiro a escolher essa rota se arrependeu. Por causa da saída de Reinaldo Rueda, o Flamengo entregou o time em janeiro do ano passado a Paulo César Carpegiani, que seria contratado para trabalhar como gerente de futebol. Carpegiani assumiu mencionando que o clube já procurava outro treinador, provavelmente alguém da “nova geração”. Menos de três meses depois, uma derrota para o Botafogo nas semifinais do campeonato estadual o derrubou, junto com o executivo Rodrigo Caetano. O futebol é complexo e nem sempre as decisões que parecem corretas conduzem a soluções. Alimentar as complexidades, porém, é um movimento arriscado que clubes em crise não deveriam fazer.

CORAGEM E SOLIDARIEDADE

A vitória no Fla-Flu não deu ao Fluminense um título e não é, em si, uma garantia de êxitos futuros. Mas seu valor para o entendimento de uma forma de jogar – ou, até mais do que isso, de se comportar em campo – é compatível à explosão de alegria gerada pelo gol de Luciano. O futebol proposto por Fernando Diniz é baseado em coragem e solidariedade, composição difícil de produzir e sempre propensa a causar momentos de frustração. A noite de quinta-feira no Maracanã representa outras sensações: recompensa, confiança, esperança.



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