O fator Brasil



Levir Culpi foi o primeiro a avisar, ainda na última sexta-feira, que haveria uma onda de inspeções a centros de treinamentos dos principais clubes do país. Foi como se o técnico do Atlético tivesse informação privilegiada, pois, desde então, o noticiário tem exibido a repetição de manchetes a respeito de irregularidades verificadas em visitas das autoridades a esses locais. Nota-se, claro, especial atenção a alojamentos das categorias de base e a avaliação dos riscos de incêndio, o equivalente ao aparecimento repentino de viaturas policiais onde não havia nenhuma quando um crime de alta repercussão aconteceu.

Seria um contrassenso criticar medidas cujo objetivo é evitar tragédias, e este não é o ponto. O ponto é o que se pode chamar de “fator Brasil”: o talento nacional para a complacência com irregularidades – de todos os níveis – até que uma barbaridade como a do Ninho do Urubu literalmente obriga as cadeiras a se mexer. É vasta a lista dos clubes que tiveram de tomar providências nos últimos dias, para se adequar ao que é correto ou evitar perigos. Tudo estava perfeitamente em ordem na semana passada. E não é que não haja legislação ou alguém possa explicar que não conhece a diferença entre certo e errado. As burocracias apresentam dificuldades e oferecem vias paralelas sem que ninguém se preocupe.

O pós-tragédia expõe a realidade inaceitável, mas não sem antes revelar reações imediatas quase sempre no sentido de negar responsabilidades ou minimizar danos. É como se ninguém tivesse culpa e se tratasse de um evento espontâneo, que não se compreende e não se explica. A relutância do Flamengo a discutir abertamente o ocorrido e lidar com os questionamentos indica uma conduta corporativa que não se concilia com o papel de clubes de futebol dessa magnitude. A preferência por enviar jogadores – Diego e Willian Arão, por enquanto, merecem aplausos pela dignidade – ao contato público não deixa de ser uma estratégia de comunicação, quando a ocasião pede transparência.

A verdade inescapável é que dez meninos perderam a vida dentro das instalações do Flamengo. Não há gabinete de crise que seja capaz de suavizar algo tão devastador. Mas isso é o que aparece na vitrine. No escritório que fica nos fundos, sentado à mesa e colado ao telefone, está o “fator Brasil”.



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