Meninos jogadores



No mundo dos princípios e dos sentimentos, tragédias não podem ser medidas, pois a dor não aceita métricas. Números podem ser associados a vítimas, mas o inverso simplesmente não é possível. O dia mais triste da história centenária do Flamengo é um dia de luto, não no sentido figurado tantas vezes empregado no esporte, mas no sentido mais puro e cruel do termo. O luto é o preço cobrado pelo amor, outro sentimento que não se mede, seja quando preenche corações com a energia da vida, seja quando os congela com a realização da morte.

Dizem que o futebol pertence aos jogadores e às crianças, o que torna a tragédia do Ninho do Urubu um evento indescritivelmente triste. Eram garotos jogadores, craques em seus desejos para o futuro, sonhadores de um dia a dia carregado pelas esperanças de tantos, ao mesmo tempo tão próximos e tão distantes de um momento transformador que não está mais no horizonte. Caminhos de suor e fé foram interrompidos enquanto dormiam, felizes na simplicidade que os rodeava, confiantes no próximo dia, no próximo treino, no próximo jogo.

A perda do juízo, dos escrúpulos, das responsabilidades e dos cuidados é reparável até que a realidade se apresenta insuportável. Na rotina desumana das catástrofes diárias que provocam poucos segundos de consternação e assumem seu lugar na fila, as providências chegam junto com as orações. No caso específico do futebol, até mesmo a solidariedade tem prazo curto, como se verificou no episódio do acidente da Chapecoense. Pessoas antes de escudos, humanidade antes de rivalidade, respeito antes de qualquer coisa. Durou alguns dias. Como será desta vez, com os meninos que queriam jogar futebol e não acordaram? A curva de atenção não pode ser efêmera como a que caracteriza ciclos de notícias cada vez mais rápidos.

A vida nas categorias de base do futebol brasileiro é contada por histórias de quem dormiu embaixo das arquibancadas de estádios desde cedo, escondeu o choro de saudade de casa e venceu as probabilidades para lembrar dessa época com orgulho, afeto, até com alguma nostalgia. Essas são as memórias dos que tiveram sorte. Também são conhecidos os casos de exploração, corrupção, pedofilia, subprodutos da ganância que converte o futebol em um ambiente abjeto. O incêndio no centro de treinamentos do Flamengo é uma página distinta, que deve ser compreendida com investigação séria, responsabilidade na divulgação de informações e amparo às famílias que foram transformadas para sempre. A única forma de honrá-las é trabalhar para que não aconteça de novo.

O futebol é uma indústria bilionária que não olha para seu futuro como deveria. O Brasil é um país em que tragédias evitáveis se acumulam como fatos corriqueiros. Em algum momento será necessário traçar uma linha na areia e estabelecer um antes e um depois. Que seja agora. Arthur, Athila, Bernardo, Christian, Gedson, Jorge, Pablo, Rykelmo, Samuel e Vítor. Que seus nomes não sejam esquecidos, que suas histórias não sejam ignoradas, que seus desaparecimentos não tenham significado apenas para os que choram a dor sem fim.



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