Insatisfação contínua



“O ideal tático será atingido, no trabalho que a gente imagina, ali pelo dia quinze de fevereiro (…). Nós vamos ter quatro jogos em vinte e oito, vinte e nove dias, então a gente vai ter tempo de trabalhar taticamente, fisicamente, e a equipe, no final de fevereiro, está pronta, está voando, como deveria ser uma pré-temporada normal”. A explicação é de Luiz Felipe Scolari, técnico campeão brasileiro, oferecida ao público após a vitória do Palmeiras sobre o São Caetano, no domingo passado. Deveria ser uma questão simples, de compreensão universal, mesmo que não haja interesse suficiente em respeitar o processo de construção de equipes de futebol. Mas a insanidade do calendário obriga técnicos a se repetir a cada início de ano, como essas irritantes gravações dos serviços de telemarketing. Alguém presta atenção?

Scolari obviamente se refere ao próprio trabalho, mas não custa lembrar que o time em discussão ganhou o principal campeonato do país há algumas semanas e tem o luxo de começar a temporada sem pressões adicionais. A mania de torcer por patrocínios, orçamentos e planilhas, no entanto, certamente alimenta a exigência permanente como resultado de raciocínios que o jogo não aceita. Independentemente do que se deu no ano passado, de bom ou ruim, montar o Palmeiras de 2019 continua sendo uma tarefa, jamais uma garantia. Pequenas alterações podem gerar grandes desequilíbrios, a administração do próprio sucesso é um tema muitas vezes complexo, a necessidade de ser ainda melhor impõe um recomeço. E não há nada que se assemelhe, voltando às palavras de Felipão, a uma “pré-temporada normal”.

O cenário é o mesmo para todos, exceto o São Paulo, que desde o final do Campeonato Brasileiro sabia que as fases preliminares da Copa Libertadores lhe cobrariam, bem cedo, um nível de competição que parece estar distante do que o time tem exibido. Para os demais, seja em ambientes com responsabilidades divididas como São Paulo e Rio de Janeiro, ou em locais onde o título praticamente se resume a um clássico, os campeonatos estaduais deveriam ser vistos como uma oportunidade de forçar a realização de uma pré-temporada decente. Como tal, se entende o período em que se começa a trabalhar a base física dos elencos e se aplica a carga tática que será desenvolvida durante o ano, porque, depois, não se treina mais. Quando a coisa começa para valer, a rotina das comissões técnicas é preparar jogos e recuperar futebolistas.

Os clássicos de hoje no Allianz Parque e no Mané Garrincha? Treinamentos requintados, para um exame mais rigoroso das ideias de treinadores, dos papeis de jogadores, variações, experimentos. Um estágio de preparação para as competições que definem temporadas. Sim, camisas da maior importância estarão em campo e a história das rivalidades segue sendo escrita, mas a escala de prioridades desses clubes há muito tempo foi reformada em nome de outros objetivos. Nenhum técnico deveria lidar com a cobrança de ser campeão estadual para proteger seu trabalho, pois, como se sabe, esse título não é capaz de evitar a interrupção mais tarde, se as coisas não andarem bem. Além de ser uma contradição no ponto de vista estritamente esportivo, a pressão desmedida sobre equipes em formação leva a uma dinâmica de contínua insatisfação com o futebol. Não é possível que seja isso que se busca em uma relação tão importante na vida de tantas pessoas.



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