Sentimento



Na primeira reunião de trabalho com a diretoria do Santos num hotel paulistano da região dos Jardins, em dezembro, Jorge Sampaoli revelou uma característica que o define como pessoa e treinador. A conversa era sobre a necessidade de fortalecer o elenco para que o time pudesse atuar da maneira que o técnico deseja, e cerca de sete jogadores foram mencionados. Ao se levantar da mesa para se exercitar na academia do hotel, Sampaoli pediu que a reunião prosseguisse dali a duas horas. “Quando voltarmos, pelo menos duas contratações estarão fechadas, ok?”, disse. Todos os presentes entenderam como uma brincadeira, mas a expressão em seu rosto era de absoluta seriedade.

O desejo de ver tudo funcionando imediatamente ajuda a ilustrar, em um contexto amplo, o que o Santos já exibe sob o comando do argentino, embora o valor esportivo das vitórias iniciais – mesmo a de domingo passado, no clássico com o São Paulo – seja mínimo perto do que se pretende alcançar. Não, Sampaoli não é um iPhone X operando em 5G numa terra de celulares com teclado físico e antena. Ocorre que, além da hierarquia que sua presença impõe, ele sabe exatamente o que quer e como ir de A a B. O Santos lhe deu autonomia total nas decisões futebolísticas, o que, por enquanto, o diferencia da enorme maioria dos técnicos trabalhando no Brasil.

A atuação no jogo contra o São Paulo gerou o tipo de exaltação repentina que caracteriza a esquizofrenia do futebol no país. Até quem fazia objeções sem sentido a um jeito de ser e trabalhar passou a falar em “conceitos”, falhando miseravelmente na tentativa de disfarçar que o real objetivo era apenas bater no técnico derrotado no Pacaembu, que, a exemplo de Sampaoli, mas em condições totalmente distintas, ainda está longe do que almeja. As teses – em janeiro! – e argumentações rasas ignoram o que Sampaoli já conseguiu de fato, algo que pode ser um dos pilares de seu período no Santos: um motivo para o torcedor investir emocionalmente no que vê e se apresentar para ser parte integrante.

O curto trecho divulgado da preleção do último domingo evidenciou a importância que o técnico dá à relação com os santistas. Esse é um tema recorrente em conversas internas, nas quais Sampaoli lamenta a baixa ocupação dos estádios brasileiros. Ele não concebe o futebol sem as pessoas. Se quem carrega o Santos no coração se abraçar ao time e compreender os caprichos deste jogo, as possibilidades se abrirão e as chances de Sampaoli cumprir seu contrato serão maiores. Mesmo se as coisas não funcionarem na velocidade que ele deseja.



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