Roteador



A Conmebol descobriu a internet sem fio. A partir de 2021 – exatamente, ano de dois mil e vinte e um – todos os estádios que receberem jogos da Copa Libertadores da América e da Copa Sul-Americana deverão oferecer redes de Wi-Fi. A determinação é um dos novos itens do regulamento de segurança da entidade, que, além dessa espantosa inovação tecnológica, apresenta uma série de restrições ao comportamento do público. Pretende-se, por exemplo, que todos os lugares nos estádios sejam assentos e que não se possa ficar em pé durante as partidas. A casa de leilões de Luque parece preocupada com o futuro de seus torneios diante do que se deu no ano passado, embora não tenha demonstrado, ainda, de que forma tratará dos próprios vícios.

A final da Libertadores de 2018 foi a colheita do que a Conmebol semeou durante décadas, organizando a seu modo característico um torneio corrompido por relações inconfessáveis, privilégios, regras aplicadas ou não conforme os envolvidos e o desenvolvimento de uma cultura selvagem que jamais se preocupou com o futebol. A investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos – o chamado “escândalo da Fifa” – revelou tal nível de cafajestagem que poderia tranquilamente inspirar mais uma temporada de “Narcos”. Por todos esses anos, o jogo foi apenas um pretexto para a manutenção de poder, enriquecimento sem esforço e gargalhadas a cada reunião bem-sucedida para traficar influência. A bomba explodiu em Buenos Aires e, assim como a solução espanhola, um novo empacotamento não resolverá os problemas que importam.

Várias das novas regras fazem sentido, mesmo que com evidente atraso. Ingressos vendidos apenas online, protocolo de proteção da delegação visitante em parceria com autoridades policiais, proibição de acesso de pessoas que aparecem em listas de infratores aos estádios, para citar algumas. Mas a questão com a Conmebol sempre foi a mesma: de que maneira o que está escrito será aplicado? Mais importante, talvez: de que maneira as irregularidades serão penalizadas? Não é exagero dizer que o histórico de contorcionismos e punições seletivas concebeu o ambiente sem lei que terminou por impedir que Boca e River disputassem o título em um estádio argentino, desfecho em que os gabinetes têm responsabilidade direta. Que diferença a proibição de bandeiras e faixas – outra medida do regulamento – faria neste cenário?

Como se sabe, a sede da Conmebol fica no Paraguai, mas talvez seus cartolas julguem que trabalham em Mônaco. A mudança para a decisão da Libertadores em jogo único e estádio pré-estabelecido já foi um passo contracultural em relação ao que é o futebol na América do Sul, desconectando a final do torneio de tudo que a precede. Agora se anuncia a conversão dos estádios do continente em locais incompatíveis com as sensações que as preenchem. É perfeitamente possível investir em segurança, conforto e modernidade sem alterar a maneira como o futebol é sentido nesta região, seguindo o exemplo da casa do Borussia Dortmund, onde camarotes exclusivos convivem com a Muralha Amarela.

Se a Conmebol quer mesmo transformar seus torneios, deveria começar pela forma como se conduz nos aspectos ligados ao jogo de futebol. Os gramados, os vestiários, as arbitragens, as condições de treinamento das equipes visitantes e os temas disciplinares. Enquanto isso, o WhatsApp pode seguir funcionando no 4G (onde estiver disponível) sem dramas. Mesmo porque não adianta nada o roteador cair toda hora ou não funcionar durante o jogo.



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