Moeda no ar



A depender do tipo preferido de interesse, o jogo de anteontem em Manchester deixou inúmeras e preciosas lições. Os contextos táticos das alterações nas maneiras de cada time atuar, motivadas pelas virtudes do adversário. As adaptações de escalação para buscar vantagens a partir de cenários diferentes. O reflexo evidente, em ambas as equipes, das vertentes de futebol que pulsam no coração de seus treinadores. O balanço de acertos e erros individuais que condiciona o plano cronológico de um encontro. Basta escolher, e haverá textos como este e conversas mais interessantes para tratar de um evento que transborda o resultado de 2 x 1 que cortou a distância do Liverpool para quatro pontos na liderança da classificação.

O meio de campo defensivo desenhado por Jurgen Klopp para desligar a circulação do Manchester City no centro do gramado foi bem sucedido, ao custo lógico de menos criação no setor. A saída do time de Pep Guardiola pelos lados, primordialmente pela direita, mostrou que os campeões estavam preparados para as exigências. Daí em diante, a partida foi uma exibição de imprevisibilidade que evidenciou o caráter indomável do futebol, acompanhada pelo requinte técnico que se espera da reunião de alguns dos principais jogadores da atualidade. A eleição dos destaques é meramente uma questão de preferência, alimentada, talvez, pelo que agrada aos olhos, não necessariamente por um julgamento de importância de papéis, embora todos os aspectos devam ser considerados. Um jogo como esse tem tantos atributos que, sem exagero, pode ser um discurso sobre o “estado geral das coisas” neste esporte.

Quando dois times deste pedigree oferecem o que possuem de mais valioso com a intenção de superar o oponente, o desfecho também fica a escolher. Esse é provavelmente o ensinamento urgente para um ambiente – com mais ou menos defeitos aqui ou ali, mas essencialmente caracterizado por um relacionamento neurótico com o jogo – que precisa de definições indiscutíveis a cada fim de semana, em vez de compreender que o futebol tem seus próprios desejos e aqueles que não sorriem ao final não são inúteis, dispensáveis, incompetentes que não merecem os lugares que ocupam e a atenção que recebem. A diferença entre sucesso e fracasso pode ser uma infelicidade instantânea, um equívoco da arbitragem ou uma bola que se agarra à linha do gol e não a cruza por algo indetectável pelos olhos humanos.

O gol do Liverpool que não foi para o placar por onze milímetros (!!) é a ilustração deste pêndulo inevitável. A começar pela magnífica jogada de Salah e Firmino para ativar Mane em condições de vencer Ederson e deixar o líder da Premier League em posição privilegiada no jogo e no campeonato. A bola na trave gerou o trecho mais incrível do lance: não o chute de Stones que bateu no goleiro brasileiro e tomou o caminho da rede, mas sua ação sobre a linha, fazendo com que a bola passasse entre as pernas de Salah, quando qualquer desvio seria suficiente para o 0 x 1. O alívio pela utilização da tecnologia enfatiza a aleatoriedade dos eventos que conduzem a um resultado, embora as narrativas optem por ignorá-la ao expressar sentimentos e opiniões.

Os milímetros que mantiveram o zero a zero não diminuem o que se deu depois, muito menos podem ser usados para questionar a vitória merecida do Manchester City. Mas devem ser recordados para prevenir a fabricação das etiquetas que frequentemente são aplicadas nas costas de quem perde, como se isto não fosse um jogo e uma fração de medida na trajetória da bola significasse algo além do acaso. Há ocasiões em que destinos são escritos por uma moeda girando no ar: você pode escolher a coroa, mas terá de torcer para ser escolhido.



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