Pálido



O ano futebolístico brasileiro termina com um mistério, entre aspas, que vem de Porto Alegre. O nome do melhor jogador da Copa Libertadores de 2017 está na mesa de negociações, com etiqueta de saída do Grêmio. E não é com destino a um clube europeu, mesmo fora do que se chama de “elite da elite; Luan esteve perto de ser trocado por um futebolista oito anos mais velho. A transação com o Cruzeiro, por Thiago Neves, não foi em frente porque o astro gremista não aceitou, mas a notícia não é essa, certo? Não deixa de ser espantoso que o clube que melhor conhece Luan estivesse disposto a substitui-lo numa operação em que claramente sairia em desvantagem. Algo assim só se justifica quando um dos cônjuges desiste do matrimônio.

Não consta que seja Luan, que insiste no discurso de só deixar o clube que o revelou para atuar fora do Brasil. Resta um único cenário: após uma temporada prejudicada por lesões e desempenho irregular (fatos evidentemente relacionados), Luan teve seu status alterado pelo Grêmio. Passou de craque a figura negociável, de potencial protagonista de uma transferência lucrativa a permuta em um pacote inimaginável há dois anos. Clubes não dispensam jogadores desse nível – que são ativos no negócio do futebol – apenas por causa de um ano decepcionante, especialmente quando a trajetória registra que o potencial foi indiscutivelmente atingido. Se o Grêmio não crê mais em Luan aos vinte e cinco anos, antes do que se considera o auge de maturidade de um jogador em todos os aspectos, o problema deve ser dele.

Logo depois da conquista da Libertadores, a projeção de carreira de Luan já era distinta da de Arthur, o outro jogador do time que concluiu o torneio muito bem avaliado. No caso do meio-campista, a juventude e o interesse do Barcelona indicavam um salto direto para a primeira prateleira do futebol mundial. Mas a questão também passa pelas características de atuação: é automático enxergar Arthur no plano coletivo das melhores equipes europeias, enquanto o jogo de Luan tem especificidades que dificultam seu encaixe nesses contextos. Não é por outro motivo que a seleção brasileira não lhe reservou um lugar até hoje, o que também explica por que apenas clubes médios ou integrantes de ligas periféricas tenham pensado em contratá-lo.

O que não significa que Luan não seja excelente para o ambiente sul-americano, pela combinação de refinamento técnico e inteligência na tomada de decisões. Sua capacidade de desequilíbrio individual está comprovada e jamais deveria ser minimizada como diferencial, desde que esteja inserida em uma forma de jogar e seja alimentada pela sua própria ilusão de ser o melhor. Este parece ser o centro do problema: a glória doméstica talvez não seja mais suficiente para encantá-lo, e a cada sinal de que o sonho de se tornar uma figura no futebol mais valioso não se concretizará, o brilho nos olhos empalidece. Os relatos de comportamentos exagerados fora de campo completam o retrato.

É natural que a sedução da Europa e a ideia da repetição dos caminhos de grandes estrelas exerçam um apelo poderoso. Mas há jogadores que representam fielmente as virtudes do futebol brasileiro e, por um motivo ou outro, não são convidados à mesa dos melhores do mundo. O sucesso caseiro não mais os preenche, e uma carreira de oportunidades inacessíveis para a gigantesca maioria deixa de receber a valorização que merece. Luan é um desses jogadores. Diferente, especial, superior, está diante de um futuro de felicidades nos gramados do país que talvez ele não consiga enxergar.



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