Diferentes



Jorge Valdano talvez seja quem melhor escreve no mundo sobre futebol. Seus artigos apresentam o ponto de vista do ex-futebolista que segue vivendo o jogo como paixão, sem argumentos de autoridade ou qualquer traço de ressentimento; o manejo do idioma é magistral, ferramenta para a maneira sensível com que aborda questões que parecem simples apenas para quem opta pela superficialidade. Lê-lo é mergulhar no “jogo infinito”, título apropriado para o espaço no diário El País que apresenta seus pensamentos. Mais do que recomendável, necessário.

Em sua peça mais recente publicada no jornal espanhol, Valdano ofereceu o seguinte: “… os futebolistas técnicos e imaginativos são os únicos capazes de romper o jogo rotineiro que pode converter uma grande equipe em uma equipe qualquer. Só necessitam que não os crucifiquem por ser valentes”. O raciocínio é sobre o que se passa com Isco no Real Madrid, mas se aplica a todos os jogadores criticados por “atrapalhar” a ordem coletiva que, paradoxalmente, depende deles para se impor. É um debate conceitual, provavelmente até mais oportuno para o futebol brasileiro.

Figuras como Dudu e Luan, para ficar em exemplos de maior destaque. Ou Neymar, especialmente na seleção. É para eles que os dedos apontam sempre que suas equipes não atuam bem, como se as tentativas infrutíferas que partem de seus pés fossem as razões que explicam o mau desempenho. Ou como se, ao desativar o “modo desequilíbrio”, essa classe de jogadores pudesse colaborar de alguma forma para o objetivo de todos. Além dos goleiros, eles são os únicos que dependem de um índice de aproveitamento quase impecável para não se converterem em um problema, o que contraria a dinâmica do que sabem fazer e o motivo pelo qual estão em campo.

Um dos objetivos do futebol é desorganizar o adversário, algo que pode ser feito de diferentes formas. São raras as equipes – nenhuma delas está no Brasil – em que as qualidades dos jogadores estão a serviço de uma organização posicional soberana, que determina menor influência individual até que a bola chegue a certas regiões. Mais raros ainda são os jogadores dos quais se pode exigir o que há de mais próximo da perfeição. Sobre um deles, Messi, Valdano definiu no mesmo texto: “em efeito, só se encarrega de ganhar as partidas. Cumpre com a parte do contrato que compromete a um gênio: ser o melhor”.



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