Alternativo



O Fluminense firmou um contrato de uma temporada com Fernando Diniz, em uma decisão que navega entre a ousadia e a obviedade, dependendo da forma como se pensa o futebol e, neste caso específico, como se lê o conjunto de necessidades de um clube que se encontra em posição problemática. O buraco orçamentário é uma questão de administração que só será solucionada com a sequência de gestões competentes, num quadro complexo que afeta e ao mesmo tempo depende do time de futebol. Enquanto é muito mais difícil escolher um técnico e montar uma equipe neste cenário, a opção pelo mais do mesmo apenas prolonga a dinâmica que levou o clube a essa situação. A escolha por Diniz é inteligente no aspecto estratégico, desde que, é claro, não seja tratada com os vícios de sempre. É um dilema.

Aquele torcedor que prefere não perceber a que ponto o Fluminense chegou e cobra do time o desempenho de quem trabalha com as coisas em ordem está descrente. Entende que o clube se equivocou ao contratar um inventor ao invés de um treinador. É um caso de vista cansada, que não enxerga a impossibilidade de construir um time “convencional”, dirigido por um técnico que opera como os demais. Murro em ponta de faca. O Fluminense não tem recursos para esse modelo e, se tivesse, ainda assim dificilmente seria capaz de competir com os principais clubes do país. A única opção que apresenta uma chance de sobrevivência esportiva é ser criativo, inventivo, incomum. Fernando Diniz é isso.

A cada vez que Diniz assume um clube mais relevante, uma parte do ambiente futebolístico brasileiro passa a torcer contra, como se o sucesso de quem se propõe a fugir do tradicional representasse uma ameaça. Assim foi no Atlhetico Paranaense, que terminou o ano campeão da Copa Sul-Americana com os ajustes de Tiago Nunes ao time que Diniz visualizou. O trabalho de Tiago, frise-se, foi o melhor entre todos os técnicos brasileiros em 2018, mas seu mérito está, também, em não apagar o que estava feito. Como todas as pessoas inteligentes, Diniz segue aprendendo com os próprios erros e acumulando experiências para refinar seus métodos. O período no Audax é a matriz para uma ideia que já funcionou com jogadores que ali viveram seus melhores momentos.

Quem precisa assinar um contrato com Diniz é a torcida do Fluminense, e também por um ano. Ele não terá a mínima chance se for tratado com impaciência e incompreensão, pacote danoso a qualquer trabalho que se inicia, mas ainda mais prejudicial à implantação do tipo de futebol em que acredita. A postura do torcedor deve partir da noção de que essa rota “alternativa” pode conduzir a um time que seja competitivo exibindo um jogo atraente, uma vez que as vias “normais” já se mostraram insuficientes. Mas não será rápido e certamente haverá problemas no caminho que exigirão perseverança e, por que não?, sabedoria. Não é razoável aplicar o “se não ganhar, não fica” em um clube cuja última conquista se deu em 2012.

O Fluminense não tem perspectiva de ganhar títulos relevantes em 2019. Com o modelo básico de equipes que normalmente são montadas por clubes com pequena capacidade de investimento e problemas a perder de vista, os riscos de jogar para não ser rebaixado no Campeonato Brasileiro seriam altos como têm sido. Com Diniz, não há nenhuma garantia (garantias não existem no futebol), mas ao menos há uma esperança de bom jogo e do estabelecimento de um Davi e Golias que pode unir time e arquibancada numa época difícil. Com sorte, também será divertido, um aspecto quase abandonado no futebol de sobrevivência praticado pela maioria, algo que Fernando Diniz não tolera. Essa é a boa notícia.



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