Virtual



Ao final, será como uma peça de teatro, ou um live-action em que não se conseguirá identificar o que não é real, pois a chamada mídia produzida será o espírito de um jogo de futebol sem alma. O mais importante Boca x River em todos os tempos terá sido reduzido a uma encenação, uma versão para exportação em que cada jogador é um ator de si mesmo, quase como o passo definitivo da realidade que não existe: tudo será absolutamente verídico, embora seja totalmente falso. Talvez o espetáculo gere irresistíveis teses conspiratórias e lunáticos dispostos a atravessar as próximas décadas tentando provar que a final da Copa Libertadores de 2018 não aconteceu; foi uma farsa construída para enganar pessoas, tal e qual o homem na lua ou o 11 de setembro.

Dizem que quando a tecnologia de realidade virtual for aperfeiçoada haverá um problema grave com o que se chama de mundo de verdade, essas coisas que se pode tocar e sentir. Bastará a uma pessoa vestir um desses óculos que se assemelham a capacetes que imediatamente será transportada para o lugar de sua escolha, onde terá experiências inimagináveis sem sair do sofá. O produto imediato da capacidade de fugir para cenários onde tudo é perfeito é o desprezo pelo que provoca esse desejo. Se é tão fácil se afastar de preocupações de toda sorte, por que tratar de resolvê-las? Este superclássico em Madri apresenta o mesmo dilema, mas com uma diferença fundamental: não é uma projeção gráfica em uma tela de altíssima resolução, apenas uma recriação artificial de algo que tem significado.

A ideia, porém, é a mesma: o transporte para um contexto que provoque melhores sensações na superfície, ainda que o incômodo seja indisfarçável. Tanto que os sinais foram claros ao longo da semana, da preocupação de autoridades espanholas com um tipo de público ao qual não estão acostumadas à deportação de um “barra” que entrou no avião. Pretende-se um Boca x River apenas no gramado, sem o sabor violento que o acompanha e, por ironia, causou a farsa que vale taça. Como as cavalarias das barras dos dois clubes não estarão presentes, a chance de arrependimento é pequena. O último apito trará alívio, a comemoração do vencedor soará estranha, a dor do derrotado não será tão dilacerante e a noite em Madri seguirá seu curso como num domingo qualquer, porque o que houve ali foi um transplante.

Do outro lado do oceano, onde a televisão ao vivo desta vez será incapaz de diminuir distâncias e aquecer corações, a final de todas as finais ao menos significará o encerramento de um episódio melancólico. Será como tirar os óculos, piscar os olhos um par de vezes e retornar à paisagem de todos os dias, com seus defeitos insolúveis. Claro, um dos dois aviões voltará da Espanha com o troféu para ser exibido, prova de que o jogo de fato aconteceu e há o que celebrar. Pode até satisfazer quem atira pedras em futebolistas e entende que não basta derrotar adversários para realmente vencer. Este é o engano que nasce da distorção da rivalidade e da transformação do futebol em uma desculpa para os piores comportamentos. Nunca um jogo serviu tão bem ao propósito de suspender a realidade por algumas horas.



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