Vencedores



A lista de derrotados no episódio da final exilada é longa. A começar pela casa de leilões Conmebol, embora haja quem acredite na conversa tola da “internacionalização do produto”. A Argentina, como nação futebolística de primeira grandeza, perdeu um símbolo cultural. E os genuinamente apaixonados por futebol que ali vivem foram roubados de uma experiência ímpar. Mas onde há vencidos também há vencedores, e excluindo aqueles que lucram com os negócios da operação que transportou a decisão da Copa Libertadores para Madri, o triunfo pertence aos responsáveis pelo ataque ao ônibus do Boca Juniors. O que se assiste desde o último sábado é a vitória suprema dos parasitas do jogo.

É preciso estabelecer uma diferença clara entre as torcidas organizadas brasileiras e as chamadas “barras” argentinas. No Brasil, são grupos que se aproveitam dos clubes em uma relação de promiscuidade vista como “necessária” por dirigentes fracos em todos os aspectos. No futebol argentino, são máfias que usurpam as instituições por intermédio da ameaça e da violência, um poder paralelo de atuação semelhante ao das milícias. Dão ordens, impõem condições e ganham muito dinheiro. Foi uma operação desastrada de autoridades argentinas contra a principal “barra” do River Plate, às vésperas da segunda partida da decisão, que causou a reação contra o ônibus, o cancelamento do encontro e a saída espanhola. Diante da hipótese de não entrar no estádio, a “barra” decidiu que não haveria jogo. Não houve e não haverá.

É automática a ironia da copa que homenageia os libertadores da América ser decidida no terreno de seus conquistadores, mas a vergonha é muito maior na realidade das falências que permitiram esse descalabro. Primeiro, a confissão da incapacidade de organizar jogos com presença de duas torcidas. Depois, a final cancelada pela (parcela execrável da) única torcida. E agora a submissão absoluta, o atestado de impotência assinado para a entrega de um espetáculo nacional e continental a um lugar distante, onde não se tem de lidar com arruaceiros capazes de se infiltrar em todos os setores e fazer valer sua vontade na mão grande. Não há discurso mercadológico ou complexo de Champions League que disfarce a atrocidade de um Boca x River jogando pela taça no Santiago Bernabéu por causa, essencialmente, do medo. O alerta vale para todos.

A Conmebol deveria ter tomado uma medida enérgica, sim. Mas os leiloeiros de Luque têm um papel preponderante nesse estado de coisas justamente pelo desperdício de diversas oportunidades de agir. Partindo da premissa de que se decidiu que o torneio de 2018 não terminaria no tribunal, a única possibilidade de realizar o jogo de volta na Argentina seria sem presença de público, com o ridículo de uma final num estádio vazio e o risco de tumultos do lado de fora. E mesmo que houvesse disposição e competência para cercar os arredores de Núñez com um aparato militar de segurança, o resultado seria algo como a versão portenha de “Nova York Sitiada”, o que não deixaria de significar um troféu para os baderneiros.

Esterilizado em Madri como um evento exótico, o superclássico mais valioso da história se remove da Idade da Pedra do futebol e gera a falsa sensação de segurança de quem passa férias na Europa. Os problemas momentaneamente deixados para trás ficam onde estão, intocados por sociedades que corromperam o futebol e dele se tornaram vítimas, obrigadas a reconhecer a própria responsabilidade no assalto ao ônibus de futebolistas a caminho de um jogo. Porque deixou de ser um jogo há muito tempo.



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