Pior



A pior reação de um torcedor brasileiro ao circo da final da Copa Libertadores é apontar o dedo, como se não fosse um problema compartilhado. Promiscuidade com quadrilhas organizadas, violência latente e incapacidade organizacional, em maior ou menor nível, são características do futebol no continente sul-americano, de modo que a vergonhosa derrota argentina deveria doer também por aqui. Mesmo porque é necessário ressaltar que o único aspecto positivo – se é que há um – do fim de semana em Buenos Aires muito provavelmente não se verificaria em situação semelhante num estádio brasileiro.

Rememorando: foi necessário que Carlitos Tevez saísse do vestiário do Boca Juniors e dissesse que o time sofria pressão para entrar em campo, para que se notasse o alcance da insanidade dos políticos do futebol. Na Argentina, os futebolistas têm representação atuante e força para impedir a barbaridade de realizar uma partida naquelas condições. Quantos jogadores brasileiros, sob ameaças de cartolas e “autoridades”, se posicionariam publicamente contra os interesses da continuidade do espetáculo? É razoável afirmar que, no Brasil, o jogo teria acontecido, desfecho ainda pior do que a obra prima da Conmebol, incapaz de resolver até agora quando, onde e como será a segunda metade da decisão.

Nenhuma determinação dos gabinetes será capaz de apagar os eventos do sábado, especialmente as cenas do ônibus do Boca rasgando pelo trajeto para o Monumental de Núñez como se estivesse nas filmagens de mais uma sequência de “Velocidade Máxima”. Criminoso nível de exposição, que leva obrigatoriamente a uma questão: se houvesse jogo e o River Plate fosse derrotado, o que poderia se passar na saída dos campeões? Diante da tragédia que as pedras quase causaram, a Conmebol deve olhar para o céu e agradecer pelo embaraço de convidar o mundo para ver um encontro que não aconteceu. Poderia ter sido muito pior.

Como os meios de comunicação locais explicam desde o fim de semana, elementos muito particulares da sociedade argentina – refletidos pelo futebol – estão encapsulados na final que não houve. Embora o contexto mais amplo dos episódios seja naturalmente familiar aos demais países sul-americanos, uma região do mundo em que se prefere ser esperto a ser inteligente, é preciso salientar certas distinções. Se fosse no Brasil, por exemplo, a partida teria sido realizada mesmo contra a vontade dos jogadores. Pode parecer um bom cenário, mas é justamente o contrário.



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