Valioso



Quando a segunda proposta do futebol chinês chegou por Dudu, em julho, um dos grandes “enigmas” da temporada se instalou no Palmeiras. Numa época – não só no futebol brasileiro – em que jogador que deseja sair ou sai ou deixa de jogar, os objetivos do ano foram ameaçados pela situação do futebolista mais decisivo do elenco. O clube tinha negociado Keno com um time egípcio baseado na noção de que Dudu, após a recusa da primeira investida chinesa, em janeiro, e a renovação do contrato com aumento, permaneceria vestido de verde ao menos até o fim de 2018. Determinado a dizer não aos 15 milhões de euros do Shandong Luneng para segurar o atacante, o Palmeiras sabia que mantê-lo não significaria, necessariamente, garantir o mesmo nível de produção.

Em conversa com o presidente Maurício Galiotte, Dudu deixou claro que queria ir embora. “É a minha vida”, disse. O dirigente respondeu de forma semelhante, explicando que a ausência de um jogador como ele teria impacto prejudicial na realidade de todos no clube, inclusive na avaliação da gestão, exatamente por causa da saída de Keno. Galiotte relembrou o acordo feito após a primeira tentativa da China e a valorização que Dudu recebeu na extensão de seu contrato, argumentos que desempenharam um papel importante na decisão final. A questão, então, era assegurar que a frustração não levaria a um momento de insatisfação e, consequentemente, de queda técnica.

Há quem considere a possibilidade de tudo ter dado errado se Luiz Felipe Scolari não tivesse assumido o time no final daquele mesmo mês. Entre os objetivos da contratação de um treinador que significa tanto para um clube específico estão questões internas que costumam se resolver apenas com sua presença. No caso de Dudu, foi necessário um pouco mais. Scolari abraçou Dudu com a combinação de confiança e compreensão que marca a trajetória de treinadores experientes como ele, solucionando um breve período de abatimento pela negociação que não aconteceu. Na arrancada invicta que constitui um desempenho histórico no campeonato nacional de pontos corridos, as impressões digitais de Dudu podem ser encontradas sem esforço. Assim como as de Scolari.

A atuação na vitória sobre o América, no meio da semana, de certa forma resume o que Dudu representa. Explosão, técnica, desejo pela vitória e uma dose cada vez mais acertada do instinto de sobrevivência dentro do campo. De um jogador temperamental que tinha dificuldade para se manter no controle dos próprios nervos, e por isso se prejudicava, Dudu passou a ser um incômodo apenas para os adversários. Os passes que se originam de suas jogadas individuais são sinais claros dessa evolução. Geralmente, jogadores “chatos” em campo são ensimesmados e mais preocupados com os próprios números. Dudu, uma peste quando recebe a bola, também a compartilha quando nota companheiros em melhor situação. Na quarta-feira passada, ele deu um gol para Borja e outro para Willian.

Diferentemente do que se deu no time campeão brasileiro em 2016, em que o protagonismo se dividiu entre Gabriel Jesus, Moisés ou até mesmo Jailson, não há discussão sobre o jogador mais valioso deste Palmeiras. A conquista de mais um troféu o converterá em personagem definitivo das memórias palmeirenses, para o constrangimento dos torcedores profissionais que o hostilizaram na chegada a um hotel bonaerense, em abril. A satisfação que está prestes a se materializar não seria possível se Dudu não tivesse sido convencido a ficar, e se convencido de que ficar e jogar gerariam o que não tem preço. Aos vinte e seis anos, ele ainda ganhará muito, em todos os sentidos.



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