Mutação



Durante sua palestra na CBF, em maio do ano passado, Marcelo Bielsa se referiu a Daniel Alves e Marcelo como “atacantes disfarçados de laterais”. A possibilidade de utilizar esse tipo de jogadores como ferramentas ofensivas sempre foi uma marca da seleção brasileira, e, no caso do time que Tite pensou para a Copa do Mundo da Rússia, determinou até como a bola deveria ser movida da defesa ao ataque. Mas, como resultado de um processo natural, é difícil imaginar os sucessores de Cafu e Roberto Carlos em campo no Mundial de 2022, o que significa que o encerramento de uma era se avizinha.

Laterais protagonistas em mecanismos ofensivos caracterizam o futebol brasileiro desde que Nilton Santos ignorou a “fronteira proibida” da linha central e se apresentou como muito mais do que um defensor. Os nomes que deram sequência a esse jeito de atuar, nos dois corredores do campo, poderiam ocupar várias linhas desta coluna, constituindo décadas de fartura que certamente causaram inveja a técnicos de seleções nacionais ao redor do mundo. Ocorre que nada dura para sempre, e o ciclo para a próxima Copa exibirá uma substituição no perfil dos laterais. Obviamente não serão defensores puros, mas também não serão construtores de jogo.

A passagem de guarda está mais próxima no lado direito. Daniel, que seria titular na Rússia se não estivesse machucado, terá trinta e nove anos quando o Catar chegar. Nada sugere que ele não possa seguir em alto nível no futuro imediato, talvez até vestindo a camisa da seleção na Copa América em casa. Mais um Mundial, no entanto, é extremamente improvável e os jogadores disponíveis para a posição não lhe são semelhantes. Danilo, titular nos últimos amistosos do ano, oferece força e chegada ao fundo, mas, em repertório, não faz sombra ao jogador do Paris Saint-Germain.

Na esquerda, o reinado de Marcelo pode se estender até o Mundial do Catar, quando ele terá trinta e quatro anos, mas a linha sucessória apresenta outro DNA. Filipe Luís, reserva imediato e mais velho, é um excelente defensor/passador. Alex Sandro tem explosão, velocidade e gosto pelo ataque, mas não se encaixa na definição de Bielsa de “falso lateral”. Em entrevista recente, Tite declarou que o jogador da Juventus será o titular natural com o passar do tempo, de modo que a mudança de característica – com impacto na maneira coletiva de jogar – está em curso.



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