Desconforto



O estabelecimento da doutrina que culpa o técnico por todos os problemas de um time de futebol não é danoso, apenas, por causa da contínua interrupção de trabalhos e do desrespeito ao processo de construção de equipes. Esse modo de “pensar” e agir – ver: Clube Atlético Mineiro desde 2015; nove trocas de técnicos e um título estadual – cria e alimenta uma espécie de poder paralelo ao redor de um clube, convocando para a tomada de decisões ligadas ao futebol figuras que não deveriam sentar-se à mesa.

A fogueira de vaidades permanentemente acesa nos clubes brasileiros, especialmente naqueles de representatividade popular mais significativa, abriga pessoas que não entendem do assunto e estão mais interessadas em manter suas próprias áreas de influência do que em qualquer outra coisa. O mesmo se dá com os chamados “torcedores profissionais” que julgam representar o pensamento da coletividade sem jamais ter essa autorização, e, claro, com os setores da crítica que não conseguem mais se diferenciar, em comportamento, da volatilidade da arquibancada.

O que vem acontecendo no São Paulo cabe precisamente nesta descrição. E não é curioso somente por se tratar de um clube notabilizado, até há alguns anos, como um modelo de administração dotado de maior quantidade de neurônios do que a concorrência. Mas porque, embora seja uma noção infantil e desconectada da realidade, internamente ainda se enxerga nessa posição de superioridade. A demissão de Diego Aguirre é a página mais recente dessa deterioração, um evento que agrega surpresa ao “mais do mesmo” por causa da presença de Raí como executivo de futebol, alguém que indiscutivelmente conhece os processos e está capacitado para a função.

O esgotamento dos argumentos futebolísticos do time são-paulino é evidente e está relacionado ao trabalho de Aguirre, mas não só. Equívocos foram cometidos na montagem de um elenco desequilibrado e na administração de comportamentos de determinados jogadores, nível que está acima do treinador e tem óbvia influência no campo. Mas não há como sustentar que o potencial da equipe é superior à posição que ocupa na classificação do Campeonato Brasileiro, sem esquecer que o ano de 2018 representou uma importante mudança de perspectiva em relação à temporada anterior. Era o momento de romper com a doutrina que só responsabiliza uma pessoa e tratar de melhorar coletivamente em 2019.

Por isso é decepcionante ouvir Raí soar como todos aqueles que vieram antes dele, no São Paulo e em outros clubes. Mesmo que seu desconforto sugira que ele também percebeu.



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