Irmãos



Nada é exatamente como parece. Em primeiro lugar, a relação que existe entre os dois maiores times da Argentina, e talvez os de maior transcendência do continente, é, antes de tudo, uma relação de irmandade antes de um vínculo de inimizade. Nascidos no seio da mesma sociedade, cresceram juntos e unidos deram forma à hegemonia futebolística do país. Por outro lado, a contraposição de classes oligarcas e populares deixou de existir com a profissionalização do futebol, a expansão social e a obtenção de títulos. Por último, o clamor com tintas de Menottismo versus Bilardismo é mais uma invenção coletiva do que uma realidade recalcitrante. Ao final, ambas as equipes buscam o mesmo no jogo e possuem o mesmo paladar futebolístico (La Nuestra). No melhor dos casos, Boca e River representam a clássica figura de dois irmãos opostos, Caim e Abel ou Ying e Yang, mas o caráter amoral do futebol impede essa comparação. River e Boca são dois iguais, um é o espelho do outro. Se necessitam um ao outro, e o êxito de um repercute positivamente no rival”.

O parágrafo acima é parte de um artigo escrito por Eduardo José Ustaritz no site espanhol Ecos del Balón, em janeiro de 2013, sob o título “Argentinidade”. O texto foi republicado há dois dias por ocasião da “final eterna”, ou, mais propriamente, da “final do mundo”, expressões utilizadas para descrever o que significa o encontro dos sanguíneos rivais argentinos pelo troféu da Copa Libertadores. Está aqui, e é uma aula sobre como surgiram próximos e se distanciaram, como representam ideias opostas na mesma narrativa, como confeccionaram não apenas a identidade do futebol argentino, mas uma porção significativa da própria identidade argentina. “River e Boca é a construção mais estruturada que o movimento cultural argentino conseguiu criar”, escreve Ustaritz.

É curioso que essa obra esteja próxima do precipício justamente no instante que deveria celebrar tudo o que alcançou. Nunca houve uma final como essa, não apenas na América do Sul. La Bombonera e o Monumental de Nuñez compartilham o verbete que, mais do que explicar os contornos do futebol de uma nação, traduz de que forma essa nação entende o futebol como reflexão de si mesma. Ao se encontrar em dois jogos de magnitude incalculável, eles finalmente estarão separados pelo resultado que definirá como se relacionarão para sempre. Ou até que algo dessa natureza volte a acontecer e obrigue um povo a revisitar uma verdadeira experiência de autoconhecimento em cento e oitenta minutos (ou apenas noventa, se a ideia da decisão em jogo único se instalar).

A relação entre iguais chegou ao ponto insustentável. Custa imaginar, retornando às palavras de Ustaritz, que o êxito de um repercutirá positivamente no rival. Não desta vez. Esses desdobramentos se dão quando os sentimentos não estão diretamente relacionados, quando a dor não é imposta por quem se agiganta em triunfo. Os próximos sábados constituirão uma quebra na linha do tempo que une River Plate e Boca Juniors, impedindo os irmãos opostos de se identificar um no outro. O espelho terá sido estilhaçado. De fato, é mesmo a “final do mundo” como se conhece, uma redefinição da argentinidade pela Copa que liberta, mas também aprisiona.

ÚLTIMA VEZ

A propósito, a última decisão de Libertadores em dois jogos deixará saudades. Imagine um River Plate x Boca Juniors no Maracanã, ou no Centenário, ou em qualquer outro estádio do continente. Interessante para o público local, problemático para as duas torcidas envolvidas, terrível para a história construída por essa rivalidade. Se a ideia de organizar uma festa descaracterizada significar que o torneio jamais voltará a ser concluído como merece, a edição de 2018 ao menos mostrará exatamente o tamanho do equívoco.



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