Digestão



É amplamente conhecido nos bastidores do futebol de São Paulo o episódio, há alguns anos, em que um jogador renomado cometeu a mesma falha duas vezes em uma semana: apresentou-se para treinar em condições inapropriadas. Na primeira, o técnico percebeu logo na chegada e o desviou para a academia. Na segunda, foi mais grave. Só quando o aquecimento já estava em andamento, com a presença de câmeras, é que o treinador notou que a situação havia se repetido. Ele esperou alguns minutos e, discretamente, providenciou a retirada do jogador do campo. Mas o estrago estava feito, porque os companheiros evidentemente perceberam a reincidência. Naquele dia, o técnico teve certeza de que a preparação para um jogo do campeonato estadual tinha sido comprometida, e que não poderia fazer nada para solucionar o problema.

No fim de semana, em uma atuação tenebrosa, o time foi derrotado por um adversário muito inferior. Um pedido de desculpas do treinador na reapresentação, por ter permitido duas faltas disciplinares do mesmo jogador, abriu uma conversa em grupo na qual o futebolista em questão também reconheceu seus erros. Antes de encerrar o caso e retomar o trabalho, um titular menos famoso pediu a palavra. Em tom amigável, porém firme, disse que todos ali compreendiam e aceitavam as diferenças em relação à carga de treinamento e aos papeis em campo, pois o objetivo era o benefício coletivo. Mas ressaltou que certos excessos na vida pessoal nada tinham a ver com talento ou currículo; direito de um, direito de todos. A mensagem não poderia ser mais clara.

Administração de grupo, especialmente neste nível, é uma tarefa para equilibristas. Além de identificar as diferentes formas de tratar pessoas distintas, sem que nenhuma delas se sinta injustiçada, é preciso conter os efeitos dos problemas que acontecem com frequência muito mais alta do que se imagina. O caso de Diego Alves, no Flamengo, é um desses episódios que exigem perícia na tomada de decisões para evitar danos colaterais. Como se não bastasse, a questão se apresenta num momento crucial, em que o time pode se inserir definitivamente na disputa do troféu do Campeonato Brasileiro se vencer o Palmeiras neste sábado. Nada é mais importante do que a sequência do desempenho recente, que depende da manutenção do ambiente interno que parece transformado desde que a atual comissão técnica assumiu.

A declaração de Dorival Júnior, em entrevista na quinta-feira, não deixa dúvidas quanto à seriedade da situação: “É claro que existem arranhões em uma tomada de posição, porém essa ferida tem que ser a menor possível e cicatrizar rapidamente”, disse. “Se tivéssemos algo mais sério, uma deslealdade muito grande, já teríamos reflexos no domingo (no jogo contra o Paraná)”. Embora a questão esteja no âmbito da diretoria a partir do momento em que Diego Alves disse que não jogaria mais, a missão de Dorival é garantir que a abordagem ao problema não desagrade os companheiros do goleiro. Parece simples, pois o equívoco do jogador é indiscutível, mas a insatisfação em vestiários é como os vazamentos em obras: se estiver presente, a água encontrará seu caminho.

Impedir que o impasse com o ex-titular do gol afete um encontro decisivo já não é mais possível. Como se não fossem suficientes o estádio lotado e a necessidade de vitória, César evidentemente entrará no Maracanã logo mais carregando alguns quilos adicionais em pressão. Mas não é apenas a atuação dele que estará sob análise mais criteriosa. O desempenho coletivo do Flamengo, vistoso nas últimas vitórias, responderá como os jogadores digeriram as decisões do clube a respeito de um companheiro que lhes virou as costas. Diferentemente do treinador do episódio mencionado nos primeiros parágrafos, Dorival Júnior não está preocupado. Não será ele a se desculpar na reapresentação.



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