Respeito



As cenas dos bate-bocas envolvendo o árbitro Ricardo Marques Ribeiro após Internacional x Santos – nos corredores do Beira-Rio e no aeroporto Salgado Filho – compõem o retrato de um futebol descontrolado, que por sua vez é o espelho de uma sociedade perturbada. Não importa se houve prejuízo ao time gaúcho no triste episódio de segunda-feira, quando a demora da equipe de arbitragem para decidir sobre um lance impossível aos olhos humanos foi mais um depoimento a favor do VAR. Ninguém tem o direito de se dirigir a um árbitro, ou um técnico, ou um jogador, como se fez com Ribeiro, que reagiu com coragem em ambas as situações.

Em um ambiente de futebol respeitável, a atitude de funcionários do Inter no túnel dos vestiários não passaria impune. Entre tantas razões óbvias está o estímulo a comportamentos semelhantes em locais públicos, como aconteceu no dia seguinte no aeroporto, quando o árbitro foi hostilizado por “torcedores” em um episódio que felizmente não foi mais sério. Novamente, a questão não passa por competência, acerto ou erro, mas pelo tipo de convivência que se deseja estabelecer entre todos os envolvidos no jogo. A violência latente no cotidiano não deve ser alimentada, especialmente por quem trabalha no futebol e tem o dever de agir no sentido contrário.

Parece claro que a equipe de arbitragem que atuou no Beira-Rio fez o tempo passar para que uma informação baseada nas imagens da televisão chegasse ao gramado. É assim que árbitros e assistentes aprenderam a se defender do ridículo a que são expostos, ou seja, o fato de ser os últimos a saber o que aconteceu em um lance sobre o qual devem decidir. A arbitragem analógica foi superada há muito tempo pela dinâmica do jogo de futebol, mas descobriu um jeito de se salvar de grandes escândalos: algo que se pode chamar de “VAR pirata”. Como a televisão acertadamente não mostrou o replay, Ribeiro e seus colegas tiveram de jogar a moedinha para o alto.

A responsabilidade precisa ser dividida. É da CBF, que organiza, mas não zela pelo campeonato; dos clubes, incapazes de se unir em torno de tema algum; da comissão de arbitragem, que age como se os problemas não existissem; e dos próprios árbitros, que não buscam a profissionalização e a independência necessárias para exigir melhores condições de trabalho. Mas nem mesmo a implantação da arbitragem eletrônica trará a evolução se o ambiente do jogo não se caracterizar por educação e respeito.



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