Cognição



Esta não é mais uma coluna sobre o VAR. Não no sentido de discutir sua necessidade, sua eficiência, as áreas em que sua utilização pode melhorar. Isso, felizmente, e até por uma questão de limite de paciência, está no passado. O árbitro de vídeo faz parte da regra do futebol de hoje e assim deve ser compreendido, especialmente por quem não gosta, ou, pior, por quem acha que se trata de uma ferramenta não para tornar o jogo mais justo, mas para modernizar as maneiras de corrompê-lo. O sistema está em uso em diversos países, com impressões majoritariamente positivas, e com um nível de aceitação proporcional à evolução que acompanha a prática de quem o aplica e o hábito de quem assiste. Não há nenhum motivo para que o futebol brasileiro não trilhe o mesmo caminho, embora nossos defeitos sejam mais numerosos.

Esta é uma coluna sobre um desses defeitos; a infantilidade que impera em toda e qualquer discussão relacionada ao futebol, seja porque posições são usadas como ataques que pretendem devastar o “inimigo”, seja pela absoluta falta de interesse em entender, ponderar, às vezes até mesmo ouvir aquilo com que se discorda. Na noite de quarta-feira, enquanto Corinthians e Cruzeiro decidiam a Copa do Brasil e o árbitro de vídeo parecia ser um adversário de ambos, a forma como os acontecimentos eram abordados no Twitter – por torcedores diretamente envolvidos com o jogo, por quem queria ver o circo se consumir em chamas e também por jornalistas – ajudava a explicar por que o futebol, entre tantos outros setores de maior ou menor relevância, tem tanta dificuldade para avançar no país.

O julgamento a respeito das decisões discutíveis tomadas pelo árbitro Wagner do Nascimento Magalhães foi taxativo como se o VAR estivesse em ação há anos por aqui, quando a Copa do Brasil de 2018 é o primeiro torneio do calendário nacional a lançar mão do recurso. Além da costumeira confusão que culpa um sistema eletrônico pelos erros de pessoas, como se o sistema pudesse se defender do mau uso, notou-se uma espécie de análise antropológica do tema. A conclusão foi que o VAR não serve para o futebol brasileiro. Ou, mais grave, que o futebol brasileiro não serve para o VAR. A amostra é mínima, alguns poucos jogos e os problemas que obviamente se impõem até que inovações façam seu papel como se espera, mas, ao que parece, o salto para o veredito já foi feito.

Por equivalência, a coisa vai além da “satisfação” por criticar as cirurgias cardíacas robóticas pois, afinal, pacientes seguem morrendo por problemas no coração. É como se o brasileiro não merecesse o acesso à técnica, ou como se nossos médicos fossem irremediavelmente incompetentes. A arbitragem brasileira é ruim? Sim, muito. Mas não é pior do que na Espanha, na Itália, na França, e até mesmo na Inglaterra, onde existe, de fato, um espírito elogiável no sentido de “deixar jogar” (com consequências diretas em lesões, mas esse é outro assunto), mas se falha em lances capitais como em outros centros. As polêmicas em torno do vídeo na final da Copa do Brasil não se deram porque os árbitros nacionais são capazes até de desacreditar o VAR, mas porque ninguém consegue alterar a maneira de apitar jogos de futebol da noite para o dia.

Os equívocos prosseguiram no dia seguinte, quando Manuel Serapião Filho, coordenador do VAR no Brasil, declarou que Wagner do Nascimento Magalhães não errou em suas decisões. É uma reação tão imatura quanto a cachoeira de detritos nas redes antissociais, principalmente por vir de quem tem tanta responsabilidade. Se a escolha for pela abordagem pública do tema, que a mensagem transmita um caráter didático e, acima de tudo, de um processo em andamento para que o sistema de árbitro de vídeo seja o que pode e deve ser: um passo para um futebol em que as imperfeições da arbitragem tenham menos impacto no resultado de jogos e campeonatos. Qualquer pré-adolescente tem capacidade cognitiva para compreender isso.



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