Não estamos prontos



As pessoas favoráveis à utilização do árbitro de vídeo no Campeonato Brasileiro receberam uma notícia assustadora nesta semana: na CBF, há quem esteja pensando em implantar o sistema nos jogos da “reta final” da competição deste ano. Foi o coordenador do VAR no futebol do país, Manoel Serapião Filho, quem mencionou a possibilidade, dizendo ao globoesporte.com que iria a São Paulo “treinar mais uma equipe de árbitros para quando a CBF quiser colocar em todos os jogos da Série A, ainda nesse ano se assim desejar, estarmos prontos”. É o tipo de coisa que alimenta a esperança de que seja fake news, como tantas “informações” que circulam nesses tempos difíceis. Mas obviamente, e infelizmente, é real. E basta que seja ainda apenas uma cogitação para congelar a espinha.

Aliás, cabe perguntar: o que poderia ser chamado de “reta final” do Campeonato Brasileiro? As dez últimas rodadas? Cinco? Duas? Qual sentido há em que estabelecer um momento, num campeonato em que não existe distinção entre fases, para modificar a atuação da arbitragem? Seria igualmente insensato, mas não tão sem sentido, determinar que o árbitro de vídeo entrasse em ação num torneio em que houvesse algo como um playoff, com outra forma de competição. Mas num sistema em que os pontos que levam ao título e ao rebaixamento são disputados da mesma maneira, não há explicação para o VAR simplesmente surgir. A CBF não deveria pensar nisso e certamente não deve fazê-lo.

Além de uma interferência que fere o espírito da disputa, e do risco de bagunçar um trecho de um campeonato elogiável até aqui, há o perigo de impedi-lo de chegar ao fim. Calcule o que acontecerá se o título for decidido por um gol validado, ou invalidado, pelo vídeo. Pense no que um rebaixamento pode precipitar caso haja envolvimento do VAR em um determinado encontro. Estará aberto o portão para o pandemônio jurídico-esportivo que conhecemos de outras oportunidades, e que por isso mesmo deve ser evitado com todas as providências imagináveis. Entre tantos problemas que o Campeonato Brasileiro ainda tem, nada seria tão grave quanto um questionamento ao STJD por causa de resultados alcançados com a intervenção de recursos não disponíveis em todas as rodadas. Mesmo em caso de acerto. É uma insanidade.

Em setembro de 2017, um gol de Jô feito com o braço no jogo entre Corinthians e Vasco gerou um flerte com tamanha inconsequência. Então presidente da CBF, o Marco Polo que não viaja – e que agora só articula nos bastidores do futebol – determinou a introdução do árbitro de vídeo num campeonato que acabara de realizar a vigésima-quarta rodada. Se se tratasse de alguém relacionado ao jogo de forma séria, se poderia imaginar que era uma cortina de fumaça para desviar a atenção da opinião pública. No caso de Del Nero, foi apenas um devaneio. Aspectos técnicos e de treinamento de árbitros imediatamente enterraram a loucura, e o campeonato terminou com o incômodo de um gol irregular validado pela arbitragem analógica. Que não foi o único e não passaria pelo exame do VAR, mas que em nenhuma hipótese deveria acionar um gato do apito eletrônico.

O Campeonato Brasileiro necessita urgentemente do árbitro de vídeo. É assombrosa a frequência de ocasiões em que erros seriam corrigidos com a utilização do recurso. Mas enquanto não houver condições de equipamento e preparo humano para utilizar o sistema em todos os jogos de todas as rodadas, que a disputa possa terminar com os mesmos defeitos de quando começou. A não ser que “a nova CBF”, a “CBF do compliance”, esteja trabalhando em algo tão danoso quanto as notícias falsas; uma campanha estratégica cujo único propósito é desacreditar o VAR.



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