Separados



Há um equívoco em andamento em certas partes, sabe-se lá por quê, que sugere a reunião de Pep Guardiola e Jurgen Klopp como treinadores que propõem a mesma vertente de futebol. Como se ambos compartilhassem conceitos fundamentais de entendimento de jogo e suas equipes estivessem separadas apenas por sutis preferencias pessoais. Nunca foi o caso. Tanto no período em que se enfrentaram na Alemanha quanto agora, quando coincidem no futebol inglês, há diferenças elementares na maneira como cada treinador pretende vencer, embora seja correto afirmar que o catalão e o alemão pratiquem o que se pode chamar de “futebol de ataque”. Eles também se preocupam em agradar o público não só com resultados, mas com estilo. Apenas não pertencem à mesma categoria, pois enquanto Guardiola é o principal expoente do jogo de posição e posse, Klopp criou um estrato em que não tem companhia. 

Numa analogia simplista entre esportes completamente distintos, se os times de Guardiola fossem pugilistas, se caracterizariam pelo domínio de iniciativa e supremacia desde o primeiro segundo, à procura da submissão do oponente e da vitória por nocaute técnico. As equipes de Klopp aplicariam uma violenta estratégia de ataque nos movimentos iniciais, com o objetivo de castigar o adversário e condicionar o restante do combate. Um tem a pretensão de excluir o rival da disputa, o outro trabalha para feri-lo e desabilitá-lo. Em certos aspectos, representam ideias completamente opostas: Guardiola é a organização, a excelência, a paciência; Klopp é o caos, a impetuosidade, a fúria. Embora estejam distanciados por rotas diferentes, jamais serão vistos aguardando uma oportunidade resultante do acaso. Se algo os une é o desejo por determinar o destino de encontros, principal razão pela qual são admirados.

É fato que o futebol de Klopp é um incômodo para Guardiola, como evidenciam os números dos confrontos entre Bayern e Dortmund e Manchester City e Liverpool. O atual trabalho do técnico alemão é um produto refinado da pressão à saída de bola do adversário e da imediata punição ao passe desperdiçado nas intermediárias. Os atacantes do Liverpool exigem erro zero de equipes que constroem o jogo a partir do próprio goleiro, e, como se sabe, a perfeição é algo que não existe. Os encontros da temporada passada, especialmente em Anfield, também expuseram o hábito do Manchester City de se desconectar quando não consegue estabelecer controle e sofrer gols em intervalos curtos. A necessidade de mover a bola com máxima segurança certamente era uma prioridade para os jogadores de Guardiola na partida de ontem, que terminou em um zero a zero frustrante, considerando as virtudes de dois – agora três, ao lado do Chelsea – líderes do campeonato inglês e a comparação com os últimos enfrentamentos.

Ambos os times fizeram um excelente trabalho de cancelar qualidades adversárias, o que também ilustra a impressão geral a respeito do empate. O City praticou um jogo mais lento do que o habitual, de certa forma desfigurando o potencial ofensivo que possui. O Liverpool não foi capaz de trazer seu torcedor para dentro do campo, sempre um sinal claro das ocasiões em que as ações estão “descontroladas” a seu modo. Se alguém se aproximou da vitória foram os visitantes – o que não acontece desde maio de 2003 – , não só pelo pênalti desperdiçado por Riyad Mahrez no minuto oitenta e seis. No ringue, não houve uma tempestade de golpes ao soar do sino, nem uma exibição técnica de domínio indiscutível. Os juízes concordaram em não pronunciar um vencedor, resultado que pode ter agradado a Guardiola e Klopp, mas desiludiu quem esperava por suas melhores versões.



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