Abel, o correto



A história do telefonema de Abel Braga para Maurício Barbieri surpreende a todos, e, ao mesmo tempo, a ninguém. O gesto merece todo aplauso possível, por ser raro, mas quando se tenta conciliar fato e autor, a figura de Abel imediatamente o explica. Um treinador que procura um colega para dizer que se recusou – por qualquer motivo – a lhe tomar o emprego está fazendo o que gostaria que fizessem com ele. O que é correto, mas incomum. Fosse praxe, não chamaria atenção e não seria provavelmente o único aspecto positivo que Barbieri levará do processo da própria demissão. É como se Abel estivesse dizendo a todos que essa é a conduta a perseguir, que técnicos não precisam desconfiar uns dos outros. A chance de alterar posturas estabelecidas é mínima, ou nenhuma. A de marcar uma posição pessoal foi atingida. Como bônus, um técnico em início de carreira agora tem um exemplo que poderá usar quando estiver em condições de precipitar a demissão de outro profissional, o que certamente acontecerá.

Muitos treinadores costumam dizer que não conversam com clubes onde haja um colega sob risco de perder o emprego, embora nem sempre pratiquem esse discurso. Há os que apostam em tecnicalidades para sustentar a tese; não negociam pessoalmente, mas por intermédio de representantes, o que é a mesma coisa. Por outro lado, se nenhum conversasse, de nenhuma maneira, como os clubes fariam quando decidissem interromper um trabalho e trazer outra pessoa? Nas diversas ocasiões em que um técnico cai no domingo e seu substituto é apresentado na terça, alguém supõe que os contatos se iniciaram na segunda-feira? Claro que não. O modo de operar sempre será esse e a diferença é o comportamento de cada um. A ligação de Abel para dizer a Barbieri que foi procurado e não aceitou dirigir o Flamengo é um exercício dessa diferença, uma prova de que não há problema em “conversar” com clubes onde há um treinador trabalhando.

Barbieri disse ao globoesporte.com que Abel demonstra “que é possível ser um excelente profissional e agir corretamente em todos os momentos (…) e mesmo assim ser muito bom”, provavelmente se referindo à lei nacional que determina que o sucesso só é alcançado deixando vítimas pelo caminho. É um retrato da trajetória e da reputação de Abel, uma pessoa sobre quem não se ouve falar mal num ambiente em que essa é a regra. Apenas a imagem não bastaria para que seus colegas tivessem dele a impressão que têm, a de alguém com quem vale a pena conviver não dentro do futebol, mas fora, onde relacionamentos se constroem sem os antagonismos inerentes ao jogo. Para Barbieri, a beleza de um episódio de certa forma traumático por ser o primeiro é o gesto que diminui a sensação de solidão que todos os treinadores relatam quando lhes mostram a porta. Ele sabe que Abel Braga estará esperando com uma garrafa de vinho e uma conversa que conforta e ensina. Se é que isso já não aconteceu.

ANORMAL

A última vez em que Mano Menezes se mostrou tão contrariado após uma derrota foi quando o Corinthians perdeu a final da Copa do Brasil para o Sport, em 2008. Assim como na noite de quinta-feira, no Mineirão, sua entrevista após aquela decisão foi caracterizada pela indignação de quem se sente impossibilitado de competir e até de falar, razão pela qual recorreu a frases como “as coisas não foram normais”. É possível que não tenham sido mesmo, já que o futebol está repleto dessas histórias, mas o jogo de volta entre Cruzeiro e Boca Juniors também passou outra impressão: a de que o Cruzeiro deixou um pouco a desejar quando o time argentino claramente pedia para o encontro terminar. Talvez Mano tenha razão quando diz que não adianta discutir o jogo quando as circunstâncias são tão distintas do que é comum. Talvez o Cruzeiro pudesse ter alcançado um resultado que ilustrasse o que acontece quando um time ganha de tudo e todos.



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