Doze jogos



Dorival Júnior pensa futebol de forma perfeitamente adequada ao que o elenco do Flamengo oferece. Se, no futebol brasileiro, técnicos fossem contratados após processos diligentes em que devessem apresentar visões sobre o trabalho que pretendem realizar, a direção do Flamengo identificaria um interessante encaixe entre as características dos jogadores e as ideias de Dorival. O problema, ou um dos problemas, é que essa afirmação também seria verdadeira se o candidato à posição fosse Zé Ricardo, Reinaldo Rueda ou Maurício Barbieri, apenas para ficar em três nomes recentes que usaram a porta giratória 24 horas do clube. Dizer se o Flamengo acertou na contratação de mais um técnico é impossível, especialmente por se tratar de um compromisso de DOZE JOGOS e, claro, porque uma diretoria que substitui treinadores a cada cinco meses, em média, obviamente não sabe o que está fazendo.

Pode-se apontar o dedo para Barbieri por motivos a escolher, e todos estarão diretamente relacionados à decisão arriscada de colocar um técnico de 36 anos, auxiliar, à frente de um clube convulsivo em ano eleitoral. A falta de experiência naturalmente o levaria a cometer erros que até os mais consagrados cometem, e a insistente narrativa do “elenco milionário” o deglutiria quando o desempenho tivesse um gosto ruim. Mas o time que sucumbiu mentalmente ao Corinthians na quarta-feira em Itaquera tem defeitos muito mais graves do que o comando errático de um técnico em início de carreira. São os mesmos defeitos que os treinadores que antecederam Barbieri não conseguiram solucionar, e que Dorival, no trecho final do Campeonato Brasileiro, na melhor das hipóteses terá condições de maquiar. Por mais estimulante que seja a situação do Flamengo na classificação, pedir a um técnico contratado nos últimos dias de setembro que seja campeão é uma atitude desesperada.

Neste cenário caótico, talvez seja uma coincidência que o grande problema de jogo do Flamengo – a posse sem objetividade, que sugere repertório insuficiente – seja um tema sobre o qual Dorival e seus ajudantes se debruçam desde quando trabalhavam no Santos. A questão é que o desenvolvimento desses comportamentos não se dá com rápidas explicações em vídeo ou com alterações de posicionamento. Fosse assim, seria bastante simples construir equipes elaboradas no aspecto ofensivo. Há uma razão pela qual essas equipes são tão raras nesta parte do mundo – hoje só há uma, o Grêmio, em recuperação da perda de Arthur – e essa razão não é um capricho de técnicos, mas o conjunto de circunstâncias que dificultam a implantação do tipo de futebol mais difícil de alcançar. Se uma fila de treinadores não foi contemplada com o luxo dessa compreensão, por qual motivo Dorival seria o privilegiado num período tão curto e com o resultadismo em modo tela cheia?

Já faz algum tempo que Dorival Júnior se incomoda com o futebol praticado no Brasil e com a pouca perspectiva de trabalhos com início, meio e fim, como se verifica mais uma vez. O Flamengo possui os jogadores e os recursos para permitir que suas ideias sejam aplicadas, mas o histórico do clube tem desconsiderado a importância do tempo no processo de montagem de equipes. Como já se escreveu nesta página, ser técnico do Flamengo atualmente é o que há de mais próximo de um trabalho impossível. Dorival é mais um a tentar. A seu favor, além da mentalidade correta e da imprevisibilidade do jogo de futebol, infelizmente não há muito.

NÃO BASTA

A anulação do cartão vermelho mostrado ao cruzeirense Dedé pelo árbitro Eber Aquino é o reconhecimento de um erro. Um erro diferente dos outros, por ter sido cometido após a revisão do lance pelo VAR. Por isso, não é suficiente que Dedé possa jogar a volta contra o Boca Juniors, na quinta-feira. A Conmebol precisa explicar o que aconteceu na sala de vídeo e na comunicação com o árbitro em campo.



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