Alerta



O escândalo de La Bombonera ao menos prestou um serviço ao futebol: expôs a decisão inexplicável de um árbitro que teve todas as condições possíveis para acertar. Antes do VAR, episódios como a expulsão de Dedé eram acompanhados de uma explicação automática: o árbitro não podia ver o replay e precisava decidir em um segundo, de modo que a comparação com as imagens era cruel. Não mais. Agora o monitor está ao lado do campo para ajudar a arbitragem, desde que seja bem utilizado. É um luxo, mas também uma responsabilidade, porque nada pode ser pior para um sistema apresentado como um benefício para o jogo do que a impressão de uma ferramenta de manipulação.

O árbitro Eber Aquino ficou nu diante do futebol do continente sul-americano ao sugerir uma dúvida que sempre existiu: foi erro ou má intenção? Sem o VAR, a conversa termina, pois não se sabe o que ele viu. Com o VAR, a imagem e a decisão simplesmente não são compatíveis, e Aquino precisa dar explicações, assim como os colegas que estavam na sala de vídeo, e, claro, a Conmebol. O VAR é um instrumento que permite que a arbitragem de futebol seja mais eficiente e mais transparente. Um árbitro de campo que toma a decisão que Aquino tomou, após consultar o vídeo, fica muito mais exposto do que ficaria sem o recurso. Um advento introduzido para diminuir a ocorrência de erros determinantes para o resultado pode significar a diferença entre a arbitragem honesta e a desonesta.

A noite de quarta-feira foi além do constrangimento para a Conmebol, entidade recordista mundial em corrupção. A atuação de Aquino e seus companheiros causa mais dano do que a prisão de ex-presidentes envolvidos em diversos esquemas, pois se trata de um assalto ao jogo, não ao produto. Os cartolas investigados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos foram pegos com dinheiro da exploração comercial do futebol, um ambiente do qual o público, embora seja fundamental, está distante. O mau cheiro proveniente da suspeita – mais uma – de favorecimento a um participante da Copa Libertadores é inteiramente outra conversa, pois a noção de que dirigentes não são confiáveis talvez não seja capaz de afastar as pessoas, mas a ideia de que não vale a pena torcer no principal torneio sul-americano é.

O avanço é a transparência, a correta e devida comunicação aos times em campo e ao público sobre os caminhos da decisão. O que foi exibido ao árbitro, que critérios foram utilizados para chegar à conclusão, qual foi a linha de raciocínio aplicada. A equipe de VAR e o árbitro de campo devem estar disponíveis para oferecer explicações sobre o uso do sistema, porque as decisões que têm impacto nos resultados de jogos precisam ser compreendidas. O escândalo de La Bombonera fará seu papel se mostrar ao futebol sul-americano um exemplo do que o VAR não pode ser. Claro, para o Cruzeiro e seus torcedores, agora isso não basta. Para o jogo de futebol, é um alerta da mais alta prioridade.

POR UM FUTEBOL…

Dizer que Dedé não teria sido expulso se não houvesse VAR na Libertadores, como argumento pela não utilização do árbitro de vídeo, faz pouco sentido. Um jogo sem VAR está à mercê de erros que fogem à capacidade dos árbitros e assistentes, e também dos exageros cometidos por eles. Um exemplo apropriado é a expulsão de Cristiano Ronaldo, estreando pela Juventus na Liga dos Campeões. Com VAR, a decisão pelo cartão vermelho seria convertida para amarelo, mas o principal torneio de clubes do mundo ainda é analógico.

… DIGITAL

Também não se sustenta a ideia de que lances de interpretação não devem fazer parte do protocolo de revisão. Não são estas as jogadas mais complexas, aquelas em que o papel do árbitro é mais difícil? Pois o vídeo ajuda a esclarecer o que aconteceu e permite que se tome uma decisão baseada em mais informações. As opiniões continuarão divididas? Talvez, mas o papel do VAR é outro.



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