Hoje tem



A imagem de Dudu fazendo o sinal da consulta ao árbitro de vídeo, no jogo entre Palmeiras e Cruzeiro, foi um dos momentos desagradáveis de uma noite que deveria ter terminado com sensações completamente opostas em relação à tecnologia como parceira da arbitragem. A entrevista de Edílson foi capaz de ser ainda mais tragicômica, não só pela sugestão absurda, mas também como exemplo da alienação de futebolistas a respeito de um tema que os interessa. O atacante palmeirense quis que o VAR conferisse um lance em que a bola saiu pela linha lateral; o lateral cruzeirense, expulso por indisciplina, solicitou leitura labial pelo vídeo para dirimir se a ofensa que proferiu fora endereçada ao árbitro do jogo. Lógico, nada foi mais incômodo do que a maneira como o encontro se concluiu, com a evidência de desperdício de um recurso disponível, porém dispensado como se não fosse útil.

É infantil imaginar que haveria consenso em relação ao lance de Edu Dracena e Fábio, mesmo que Wagner Reway tivesse aguardado a definição da jogada e, por que todos os gols são revisados, o árbitro de vídeo entrasse em cena. A decisão por falta ou não falta dividiria opiniões e, no máximo, inverteria a origem das reclamações. Mas, pela milésima vez, é obrigatório recordar que o propósito do VAR não é o consenso. Repetindo: o-propósito-do-VAR-não-é-o-consenso. O objetivo da revisão de determinadas situações de jogo, previstas no protocolo que Dudu e Edílson desconhecem, é aumentar a chance de uma decisão acertada e diminuir a possibilidade de um erro decisivo. De modo que não é correto afirmar que o Palmeiras foi prejudicado pela falta marcada, uma vez que o vídeo poderia levar à mesma conclusão. O prejuízo foi ao jogo, que deveria descansar em paz, independentemente do resultado, sabedor de que todas as medidas para um desfecho justo foram tomadas.

E é aí que reside o problema. Por mais que sejam repetidas as orientações – para membros da arbitragem, jogadores e técnicos – de que certos lances mais agudos devem ser disputados até o final, a aplicação dessa ideia não é uma tarefa simples. Árbitros e assistentes sempre foram condicionados a agir imediatamente ao notar qualquer irregularidade, e agora devem apagar essa anotação mental em nome de uma postura mais cautelosa, menos participativa. Não é automático. Os treinamentos feitos para o uso do VAR têm óbvio valor na preparação de equipes de arbitragem para esse novo momento, mas não há simulação capaz de reproduzir o instante em que, num ambiente de pressão máxima e nos acréscimos do segundo tempo, Reway deveria ter feito o oposto do que fez em toda a carreira. Nem que fosse apenas para se livrar da responsabilidade e da repercussão de uma decisão controversa.

Só a prática em competição aperfeiçoará os mecanismos para tornar o VAR um acessório do futebol, e não apenas mais um tema de discussão. Motivo pelo qual o raciocínio deve ser o inverso do que tem sido feito por quem momentaneamente se considera prejudicado: é necessário que o árbitro de vídeo esteja presente sempre, ao invés de surgir em situações específicas, assumindo o papel do elefante no canto da sala. Os campeonatos em que essa tecnologia está em utilização revelam o impacto do hábito no comportamento de todos em campo e na forma como o torcedor se relaciona com o jogo. Ao contrário do que se imagina, o “hoje tem VAR” atrapalha mais do que ajuda. Estimula comportamentos inadequados e não colabora para a correta tomada de decisões.

EXEMPLOS DE RISCO

No ridículo conflito do calendário brasileiro com as datas-Fifa, pensa-se pouco no absurdo conceito de “profissionalismo” que vem se estabelecendo: o aplauso ao jogador que atua nos Estados Unidos na noite de terça-feira e no Brasil na seguinte. Também vale para os estrangeiros que atuam aqui e assumem riscos idênticos. Deveria ser inaceitável.



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