A quadra de Naomi



Quando a carreira de Serena Williams estiver encerrada e sua trajetória puder ser analisada com certo distanciamento, é possível que o mundo dos esportes esteja diante – como Roger Federer disse um dia – da maior atleta de todos os tempos. Homem ou mulher.

Quando sua raquete descansar, a final do US Open de 2018 será lembrada como uma das grandes controvérsias do tênis, assim como uma das maiores implosões de uma lenda do esporte. Terá sido o dia em que Serena foi superada tecnica e emocionalmente por uma adversária dezessete anos mais jovem e se envolveu em um desentendimento memorável com um árbitro de cadeira.

A propósito, quando esse dia chegar, a conquista de Naomi Osaka será ainda maior do que parece agora, pois estará claro que, além de ser melhor do que Serena em um momento específico, ela também soube lidar com um circo instalado na quadra em que se apresentou definitivamente como uma grande campeã. A diminuição da temperatura do debate – que não é apenas sobre tênis, mas sobre sociedade, sexismo e até abuso de autoridade – fará com que a figura de Osaka prevaleça. Ela merece.

Isto não é uma conversa sobre regras. Se fosse, não haveria tantas visões discordantes sobre o que se deu no sábado no Arthur Ashe Stadium. Por óbvio: a violação de coaching é indiscutível, como o vídeo evidencia. A violação de equipamento também, assim como o ataque público à integridade do árbitro (“mentiroso” e “ladrão”). Confrontadas com o livro de regras, as três penalidades impostas pelo árbitro Carlos Ramos foram perfeitas. Mas este não é o ponto.

O ponto, claro, é a aplicação das regras. Em qualquer modalidade, o que mais se cobra de árbitros é consistência ao tomar decisões. Critérios iguais aplicados para os dois lados. Especialmente no território disciplinar, em que cada árbitro pode praticar uma forma pessoal de moderar comportamentos. A questão central aqui, mais até do que o limite de tolerância que termos como “mentiroso” e “ladrão” devem gerar, é como ESTE ÁRBITRO costuma agir nesse tipo de situação.

Serena se sentiu prejudicada por ser mulher, argumentando que, no circuito masculino, tenistas fazem pior e não são punidos. Em outras palavras, Ramos foi “corajoso” apenas com ela. Ocorre que o histórico do árbitro português apresenta punições dessa natureza aplicadas a homens, entre eles Rafael Nadal, que já fez críticas públicas a ele. A pergunta crucial é se Ramos agiria da mesma maneira se estivesse diante de, digamos, Novak Djokovic. Sua trajetória indica que sim. E é aí que Serena perde o caso.

Nos mais variados esportes, fala-se sobre o duplo critério com que árbitros lidam com superestrelas. A paciência costuma ser proporcional à fama, quando não existe tratamento deliberadamente especial. Não parece correto censurar um árbitro por tratar Serena Williams como se ela fosse uma tenista de vinte anos na primeira final de Grand Slam, talvez porque havia alguém com essa exata descrição do outro lado da quadra, e Ramos sabe que dedicaria a ela o mesmo expediente se se comportasse mal.

Mal como Serena se comportou. Entre tantas frases que cruzaram a linha do que deveria ser permitido, ela disse a Ramos: “você nunca, nunca mais estará na minha quadra de novo enquanto viver”. Claro equívoco, que talvez explique por que a melhor tenista da história implodiu no segundo set de uma decisão de Grand Slam. Neste sábado específico, aquela quadra não pertencia a ela. Pertencia a Naomi Osaka.



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