Neymar, capitão



Em novembro de 2014, dias antes do último amistoso da seleção brasileira naquele ano, uma entrevista de Thiago Silva abriu uma pequena crise no ambiente do time. O capitão da seleção na Copa do Mundo realizada no Brasil se disse chateado por ter perdido o posto de titular e a braçadeira sem que ninguém tivesse conversado com ele. Dunga, então técnico da equipe, e Neymar, escolhido como o novo capitão, foram mencionados por Thiago como as pessoas que deveriam tê-lo procurado. “A sensação é de que tiraram uma coisa que te pertencia, estou triste”, disse. No dia seguinte, Neymar esteve na sala de imprensa de um hotel austríaco para dizer que não havia problema algum com Thiago Silva, atribuindo o episódio a boatos maldosos criados “pela mídia”. Thiago reformou sua declaração após uma reunião com o companheiro e o técnico, e tudo ficou no departamento das interpretações equivocadas.

Assim como se deu em relação ao desempenho de Neymar na Rússia, a imagem da Copa de 2014 de Thiago Silva foi ruim. Nos dois casos, não pelo aspecto técnico. O zagueiro – indiscutivelmente um dos melhores do mundo – decepcionou aqueles que acham que um líder não pode expor suas emoções em campo; Neymar – que jogou a Copa longe das melhores condições físicas – irritou boa parte do planeta com simulações. O setor da audiência que comemorou quando Thiago teve de devolver a faixa há quatro anos provavelmente gostaria que o mesmo ocorresse agora com Neymar. Não que ele pudesse perdê-la, porque não foi capitão em nenhum jogo da última Copa, mas que não tivesse o “mau comportamento” premiado com a posição de referência de postura que um capitão supostamente deve representar. É curioso que, tanto em 2014 quanto no momento presente, a escolha de dois treinadores da seleção brasileira tenha sido a mesma.

Na seleção de Dunga, a “liderança técnica” de Neymar era evidente. No time de Tite, após uma mudança de clube que até hoje parece não lhe satisfazer e mais uma Copa no currículo, ele segue sendo o jogador-alfa. Também continua exibindo reações que questionam sua posição de capitão. Nos piores momentos, o Neymar de hoje lembra o jogador que foi expulso após a derrota para a Colômbia, na Copa América de 2015. A braçadeira estava em seu braço direito naquela noite em Santiago, quando pareceu que, além de querer resolver todos os problemas do time, ele ainda carregava um peso extra nas costas. O discurso sobre lhe dar mais responsabilidades e estimular um amadurecimento – como futebolista – que já deveria ter chegado também não é novo, o que, se não evidencia a repetição de um erro, certamente aumenta a curiosidade sobre a decisão tomada por Tite.

Por carência de argumentos, há quem atribua essa questão ao “balcão de negócios” em que a CBF converteu a seleção, um raciocínio sem propósito. Também não faltam menções a um jogador constantemente mimado por treinadores, como se todos eles fossem tolos ou percebessem que não existe outra forma de lidar com o astro. Ao final, trata-se de uma escolha que depende da única situação em que Neymar realmente precisa reencontrar seu caminho e oferecer os melhores exemplos: o campo. O massivo componente de antipatia pessoal não deveria contaminar a abordagem ao jogador, mesmo porque é imediatamente esquecido quando ele produz como é capaz.

DIFERENÇA

Jair Ventura assume o Corinthians sob a cobrança que é natural em clubes grandes, fermentada pela década de conquistas que acostumou o torcedor a ver times vencedores. A diferença da posição dele para seus antecessores, à exceção de Osmar Loss, é apenas uma, mas crucial: não há time para almejar títulos. O que o elenco do Corinthians pode oferecer hoje são campanhas dignas, para primeiro terço de tabela no Campeonato Brasileiro se as coisas andarem bem. Sem essa compreensão, o trabalho de Ventura não poderá ser julgado com justiça.



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