Recorde



O maior mérito dos oito episódios do documentário da Amazon (“All or Nothing: Manchester City”) sobre o Manchester City é a façanha do teletransporte. O acesso sem precedentes às veias de um clube dessa categoria permite que se veja, se ouça e se sinta o que acontece ali ao longo de uma temporada, oferecendo contornos reais ao que todos os interessados pelo futebol sempre imaginaram. É uma pena que o conteúdo tenha sido confundido com o que se poderia esperar de um trabalho puramente jornalístico, o que jamais foi a intenção dos produtores. É ainda mais lamentável que as aparições de Pep Guardiola, protagonista indiscutível da série, sejam utilizadas para diminuir a profundidade da posição de técnicos – não só a dele, mas de qualquer outro – na trajetória de equipes. Há quem tente converter Guardiola em “mais um motivador” porque se descobriu que ele grita no vestiário.

De fato, essa é uma das revelações do documentário. Embora seja visto como uma figura cerebral, o técnico do Manchester City aciona uma personalidade sanguínea durante as partidas. Os vários pequenos trechos de interações com os jogadores em intervalos de encontros divulgados nas últimas semanas exibem um treinador irrequieto no ambiente privado, compatível com seu comportamento à beira do gramado. Se fosse necessário escolher os melhores momentos das mais de sete horas de material, seria fácil: as frestas para o que o público jamais vê; as manifestações internas que estão restritas a um mundo que pertence apenas a seus integrantes, muitas vezes sob o impacto do que aconteceu em campo minutos antes. Alguns desses instantes estão a seguir.

Na metade do jogo contra o Wigan, que eliminou o City da Copa da Inglaterra, Guardiola precisou reorganizar o time por causa da expulsão de Fabian Delph. Ele estava incomodado com a postura dos jogadores: “Nós vamos jogar assim no segundo tempo… não façam caras feias, por favor. Estão tristes? Muitos estão tristes. Eu não sou Deus, não sou bom o suficiente, eu sei disso. Não façam caras! É a única coisa que não quero no meu time. Eu tento fazer o meu melhor, é só isso. Em alguns anos vocês serão técnicos e poderão fazer [como quiserem], sem problemas. Por enquanto, eu sou o chefe e eu decido. Não façam caras feias, agora ou no futuro. Porque eu disse no primeiro dia, eu não sou perfeito. Eu cometo erros. Tentem ajudar”. Ao final, o gol de Will Grigg, após uma falha de Kyle Walker, significou a primeira decepção da temporada.

Outra ocasião de difícil digestão aconteceu no dia em que uma vitória no dérbi de Manchester, em casa, daria o título da Premier League ao City. O primeiro tempo terminou em 2 x 0, embora pudesse ter sido o dobro. No vestiário, Guardiola implorou aos jogadores que não baixassem a guarda: “Quarenta e cinco minutos, caras. Quarenta e cinco minutos para vocês serem campeões da Premier League, seis jogos antes. Vocês vão jogar menos por quarenta e cinco minutos porque estão pensando que já acabou? Vocês não vão defender as malditas bolas paradas como animais? Não vão atacar a nossa bola parada como no primeiro gol? Vocês sabem quantas horas gastamos aqui, todos vocês, competindo uns contra os outros para jogar sempre? Para ganhar nesses malditos quarenta e cinco minutos…”. Não foi suficiente. O Manchester United virou com três gols, adiando a conquista do City para a rodada seguinte.

Já com o troféu assegurado, Guardiola tentou encontrar formas de manter o nível de competição de seu time. Em uma palestra quando faltavam cinco jogos, o técnico mostrou os recordes de pontos, gols e vitórias que estavam ao alcance: “está nas mãos de vocês, mas eu não vou exigir isso”. Era mentira. Antes de enfrentar o West Ham, na antepenúltima rodada, Pep disse aos jogadores: “Vocês fizeram um aquecimento de merda. (…) Eu quero os malditos recordes!”.



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