Sentença



Para José Maria Marin, chegou ao fim a aventura policial que começou nas primeiras horas da manhã de 27 de maio de 2015, num hotel com vista para os Alpes, em Zurique. A data pode soar distante, mas quem passou todos os dias desde então encarcerado – mesmo que, por um período, em prisão domiciliar num aconchegante apartamento nova-iorquino – provavelmente tem uma sensação diferente. A sentença da Justiça dos Estados Unidos manterá o ex-presidente da CBF em uma prisão federal por mais algo como trinta meses, considerando atenuantes como a idade avançada do condenado, oitenta e seis anos.

Marin e seus representantes decidiram tentar a sorte no sistema judiciário americano, ao invés de aceitar um acordo que exigia admissão de culpa. O caso se encaminhou a um júri popular e, finalmente, a quatro anos de cadeia, com multas que totalizam 4,5 milhões de dólares. “Pura ganância”, expressão escolhida pela juíza Pamela Chen para descrever os crimes pelos quais Marin paga e pagará, é a ilustração apropriada para o trecho final da trajetória de alguém que possui tempo e meios para fazer o que bem entende, só lhe falta a própria liberdade. Certamente uma aposentadoria que ele e outros donos do futebol jamais cogitaram, um anoitecer que não chegaria sem o envolvimento de autoridades americanas.

Ao final, deu tudo errado. A caracterização definitiva do cartola brasileiro não será aquela que seus advogados tentaram construir no tribunal – a de um tolo que não tinha noção de que o que fazia era errado e ilegal – , mas a de um corrupto internacional, um criminoso condenado, “um câncer para o esporte que dizia amar” nas palavras da juíza Chen. Figuras similares a Marin que aguardam pelas suas sentenças agora já sabem o que os espera; serão os rostos de uma forma de administrar o futebol que foi desmascarada e punida como se faz com mafiosos que nunca se preocuparam com as repercussões. Um dia, o toque na porta não era o serviço de quarto trazendo o café da manhã, e a casa caiu.

No Brasil, a interpretação do ocaso de Marin não pode ir além do contraste com a situação de outros ex-presidentes da CBF que se serviram do jogo da mesma forma. Protegidos pelas fronteiras e pelo pouco caso, seguem operando nos bastidores. Um deles, o Marco Polo que não viaja, também estava hospedado no hotel suíço na manhã em que a vida de seu aliado conheceu o lado desagradável de um thriller jurídico. Fugiu para o aeroporto, retornou ao país e orquestrou a ascensão de seu sucessor ao poder na confederação.



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