Perversidades



A CBF segue sendo uma instituição modelo. Os formidáveis executivos que vendem a imagem de uma “nova” confederação – a “CBF do compliance” – agem exatamente da mesma forma que durante o reinado do Dr. Ricarrrrrrrrrrrrrdo, mas fingem que ninguém percebe. Pior: também fingem que os maiores problemas do futebol no Brasil não se originam nas cadeiras em que estão sentados. Como muita gente compra, porque quer, porque se beneficia ou simplesmente porque tem dificuldade para raciocinar, as coisas ficam como estão e os estilhaços fazem vítimas colaterais. O absurdo conflito entre a seleção brasileira e os clubes é um defeito antigo de um calendário baseado na perversidade, em que os proprietários do produto são subservientes a interesses que não precisam acomodar, e se tornam cúmplices do dano ao torcedor.

Não é de hoje que a CBF solenemente ignora as datas-Fifa, obrigando os clubes a se virar sem seus jogadores em campo em ocasiões importantes. Não é de hoje que comissões técnicas da seleção precisam lidar com questionamentos que não deveriam ser endereçados a elas, situação em que o constrangimento é claro e a cobrança de posicionamentos, fútil. E não é de hoje que os clubes aceitam o prejuízo que será imposto a três semifinalistas da Copa do Brasil, sem falar naqueles que possuem convocados brasileiros e estrangeiros e não poderão utilizá-los também no Campeonato Brasileiro. O ciclo se repete: os mesmos cartolas que aceitam essa barbaridade a cada temporada fazem reclamações formais no momento da convocação, o assunto esfria a nada muda. No caso presente, a crueldade chegou ao ponto em que a CBF, que premiará o campeão da Copa do Brasil com 50 milhões de reais, sabotou o próprio torneio em nome de amistosos da seleção.

O que nos leva a Tite e a decisão de chamar um jogador de Flamengo, Cruzeiro e Corinthians para a primeira lista após a Copa do Mundo. Um arriscado parâmetro de justiça, pois a esquizofrenia reinante sempre encontrará um sinal de favorecimento a A ou B conforme a importância de cada futebolista para sua equipe. A chance de compreensão é mínima. O técnico, assim como os que vieram antes dele, ainda tem de administrar a incapacidade – quase geral – de enxergar que a única forma de não prejudicar ninguém é não convocar nenhum envolvido, o que significa minar o próprio trabalho e privar jogadores de uma oportunidade à qual têm direito. Porque é facílimo dizer que amistosos em setembro não valem nada; difícil é se colocar no lugar de Pedro, atacante do Fluminense, que ouviu sua primeira convocação no avião e chorou ao ser festejado pelos companheiros.

Identificar quem cria o problema e pode solucioná-lo não é uma tarefa complexa. Os males do calendário do futebol brasileiro existem e são sustentados porque não são males para muitos no ecossistema. Ao contrário. Enquanto a “CBF do compliance” atende os desejos dos cartórios estaduais do futebol, e os clubes desdenham da necessidade de se fazer representar, é o seu time que perde jogadores durante competições. Esse é o motivo pelo qual tanta gente – palmeirenses comemoram hoje, mas podem lamentar amanhã – torce para não ouvir certos nomes nas convocações. Pode-se tentar entender isso, ou agir como quem não entende nada e responsabilizar o técnico da seleção.

TOLICE

A Liga Espanhola firmou um contrato para realizar jogos do campeonato nacional nos Estados Unidos pelos próximos quinze anos. Não serão jogos de pré-temporada, mas partidas oficiais. O argumento é a internacionalização do produto, aos moldes do que fazem as ligas americanas com jogos em diversos países. Os equívocos de conceitos são tão numerosos que fica difícil listá-los. Além das diferenças entre os modelos das competições europeias e americanas, incluindo as relações entre times e pessoas, a ideia espanhola prejudica o balanço de forças do campeonato. Tolo deslumbramento.



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