Humanos



Uma das sensações geradas pela recepção da torcida do Liverpool ao goleiro Loris Karius, durante um amistoso na terça-feira, é a vergonha. Na verdade, dois tipos de vergonha. Um pode ser descrito como o incômodo que afeta quem é incapaz de estabelecer uma relação nobre com o futebol. O subproduto desse incômodo é a inveja, que se manifesta por intermédio da negação do valor de manifestações como a que se viu em Anfield quando o goleiro alemão entrou em campo no lugar de Alisson, já no trecho final do jogo. Aquele que desdenha quer comprar, como se sabe. Básico.

O outro tipo remete à frustração de quem se sensibiliza com o gesto em um ambiente tão contaminado, chega a ter esperança de que o momento signifique mais do que alguns segundos de respeito e compreensão, mas sabe, no fundo, que se trata de uma utopia. Karius foi perseguido pelo esgoto online por causa das falhas na final da última edição da Liga dos Campeões, e novamente massacrado após errar em um jogo nesta pré-temporada. O aplauso do estádio do Liverpool no amistoso com o Torino pode até sugerir a diferença de comportamento entre o torcedor real e o cretino virtual, mas a resposta depende da crença no tamanho da “maioria silenciosa” que não se utiliza das redes antissociais para espalhar ódio e violência.

De qualquer forma, a cena da primeira aparição de Karius em Anfield depois da derrota para o Real Madrid não parece viável em outros lugares onde o futebol é importante, como o Brasil, em que falhas em ocasiões importantes imediatamente levam a expressões como “fim do ciclo” e “mudança de ares”. Sem falar no abuso a jogadores, que já se tornou diário. A noção de que esse tipo de infelicidade equivale a um crime no âmbito do jogo, algo que deve ser punido com banimento, é apenas um dos sinais da miséria que ocupa o lugar do futebol na vida de tanta gente. São enfermos estimulados por aqueles que sofrem das mesmas síndromes e espalham, de maneira dissimulada, o mesmo rancor.

“Não fiquei surpreso [com a recepção a Karius], para ser honesto”, disse o técnico do Liverpool, Jurgen Klopp. “Mas como ser humano, eu torcia para que fosse assim”. Klopp comentou que o gesto da torcida ajudará não só o goleiro alemão, mas também o novo titular do time, Alisson, que inicia a fase inglesa de sua carreira com o peso adicional de ter sido contratado por uma soma astronômica. “É possível ser diferente em um mundo realmente duro? Sim, é possível”, afirmou o técnico. Em um mundo de imbecis orgulhosos, diferente é o humano.



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