Realidade e show



Quem pensa que esportistas ou outros tipos de pessoas públicas só deveriam fazer boas ações quando ninguém estivesse olhando deveria conhecer o que acontece, por exemplo, após visitas de jogadores de futebol a hospitais infantis. Aquela reportagem na televisão que levanta desconfiança sobre a “caridade com divulgação” gera aumento significativo na quantidade de doações a instituições que não sobreviveriam sem elas, o que por si só já justifica a presença das câmeras. Todo apoio ao atleta que prefere a discrição, mas que, vez por outra, não deixe de propagar sua preocupação e intenção de fazer o bem.

O problema não é o show de realidade que se apoderou da vida de quem aprendeu a lucrar com isso, mas a incapacidade de separar as coisas. O pedido de desculpas patrocinado de Neymar é um equívoco de primeira grandeza no aspecto da mensagem, mas fundamentalmente uma confusão conceitual. Desde cedo, pais ensinam a crianças – ou deveriam fazê-lo – que o gesto de pedir perdão não tem valor se não for legítimo; que não é um meio, mas um fim em si mesmo. A venda do reconhecimento o torna inautêntico e, por consequência, danoso a quem teoricamente procura compreensão. E numa época em que as mídias antissociais oferecem voz a todos, a exploração indiscriminada da própria sinceridade cobra um preço imediato, embora seja financeiramente atraente.

O caso de Neymar é particular por não tratar de uma falha grave no âmbito pessoal ou mesmo como jogador. Ele não cometeu violência doméstica, não foi flagrado dirigindo embriagado, não testou positivo para substâncias proibidas. Para reconhecer que fez uma Copa do Mundo pior do que se esperava – entre outros motivos, por estar machucado – bastaria uma manifestação pública de qualquer natureza, se quisesse. Uma entrevista ou um post no Instagram. Mas para dizer que desmoronou e pretende levantar, roteiro amplamente promovido pela “cultura da segunda chance”, é imperativo ser crível. Este é um território que não deve ser confundido com oportunidades comerciais.

Lance Armstrong escolheu um programa de televisão para confessar que se dopava. Tiger Woods convocou uma entrevista coletiva para falar sobre seus problemas e admitir que precisava de tratamento. Neymar, que não devia satisfações dessa categoria a ninguém, decidiu se colocar sob o mesmo tipo de escrutínio de imagem. Deu errado, mas nenhum campo de trabalho é mais generoso do que o esportivo. LeBron James já foi duramente criticado por converter uma decisão profissional em um show em rede nacional. Hoje recebe os aplausos do mundo por doar uma escola modelo à cidade em que nasceu.



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