A carta



O elenco do Palmeiras tinha terminado de almoçar no hotel em Cali (COL), horas antes do jogo de ida das finais da Copa Libertadores de 1999. Os jogadores já não estavam no salão em que faziam as refeições quando Luiz Felipe Scolari chamou um repórter que aguardava no corredor. “Veja isso aqui”, disse ele. Era uma carta que acabara de receber. Na era das mídias antissociais, soa estranho falar em cartas como instrumentos de comunicação entre pessoas. Mas, há quase vinte anos, jogadores e técnicos de futebol recebiam muitas mensagens de torcedores que chegavam assim, escritas à mão e enviadas dentro de envelopes. A que Felipão leu enquanto tomava café com Murtosa, seu auxiliar, era um agradecimento de uma senhora palmeirense, mais velha do que ele, pela campanha do time que seria campeão continental duas semanas depois.

“As pessoas pensam que essas coisas não têm significado para nós”, disse o técnico, com traços de emoção evidentes no rosto. “Mas você acha que eu posso ler isso e não ficar feliz e orgulhoso?”. O Palmeiras perdeu naquela noite na Colômbia, mas o caso de amor entre Scolari e o clube alcançaria o auge quinze dias mais tarde, quando Martín Zapata errou o segundo pênalti que cobrou no antigo Palestra Itália e Felipão correu para dentro do campo, em júbilo, celebrando a segunda Libertadores de seu currículo. Para o Palmeiras, a conquista inédita instantaneamente canonizou seu nome, a ponto de ser enxergado como solução agora, ocasião em que mesmo quem não acha que dará certo é obrigado a considerar uma relação diferente, mais ou menos como pai e filho, mais ou menos como “líder espiritual”. O futebol está repleto de casos assim e é por isso que pessoas escrevem cartas – ou posts – para treinadores.

Faz cinco anos que o Palmeiras não tem um técnico por uma temporada, e é preocupante que a imprevisibilidade característica do jogo tenha levado a um raciocínio contorcionista sobre a importância de quem lidera times de futebol. Como não se pode garantir nada e quem vai vencer é o acaso, faz sentido manter o carrossel em funcionamento até “dar liga”. Investe-se mais tempo nesse tipo de devaneio do que em tentativas de compreender ideias, pretensões, descobrir de que forma um técnico imagina construir sua equipe e ser vencedor. Não se dá atenção ao que o atrapalha, os ajustes que precisa fazer, as concessões que por vezes se impõem em certos ambientes. As fogueiras internas exigem satisfação imediata e os argumentos se repetem em ciclos inacreditavelmente efêmeros. Scolari seria o técnico apropriado para despertar um elenco que vive em excesso de conforto, mas não se tocará neste assunto se o time ganhar os dois próximos jogos.

Por outro lado, é curioso que uma diretoria “moderna”, que opera com a melhor combinação de orçamento e estrutura no futebol brasileiro tenha se mostrado incapaz de não só oferecer suporte verdadeiro a quem contrata para dirigir o time, como também de chegar a um consenso sobre que tipo de futebol quer produzir. O jogo tem um forte componente aleatório, sim, mas os processos de tomada de decisão nos gabinetes têm muito mais. E é precisamente daí que se origina a desvalorização do trabalho de treinadores. Entre tantos rótulos vazios aplicados a técnicos conforme a idade que têm, o único que significa um papel real é o do profissional condecorado que protege dirigentes simplesmente por estar ali. Por DNA, o Palmeiras recorreu ao melhor. A carta lida após o almoço em Cali não permite dúvidas.

PERFIL

Houve uma época em que a expressão “carro importado” erguia sobrancelhas no Brasil. Coisa para milionários e/ou ostentadores. O tempo passou e não é mais assim, mas, no futebol, ainda se usa “técnico estrangeiro” com uma estranha conotação, como se todos fossem um só. Aparece quando se fala no perfil: há o “experiente”, o “estudioso” e o “estrangeiro”. O atraso persiste.



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