Vencedores



Parece apropriado que uma Copa do Mundo que gerou tanto barulho por causa das simulações tenha visto um gol, na decisão, nascido em uma infração que não aconteceu. Antoine Griezmann não será personagem de memes que inundarão as redes antissociais apenas por um motivo, o que diz muito a respeito do mundo de hoje: a falta que ele cavou deu à França a vantagem no placar e colaborou para a conquista do título. Griezmann, craque, fez o papel do malandro que ri por último, o malandro vencedor, o malandro que se transforma em exemplo. Não importa que, como disse Ronaldo Nazário na transmissão da TV Globo, todos os jogadores façam o mesmo. Alguém dirá que Brozovic fez contato, e é fato, mas o replay é cristalino ao mostrar que a decisão de cair já estava tomada. Encenação, teatro, tentativa de ludibriar o árbitro para obter uma decisão favorável. E que fique claro: isso não deve diminuir em um milímetro o enorme Mundial que ele jogou, ou seu orgulho por ser campeão. É apenas curioso o comportamento da bússola moral nessas situações.

Péssimo que uma decisão de Copa tenha um gol assim, mas a tecnologia para auxiliar a arbitragem nada pode fazer para impedir. O anacronismo das críticas ao árbitro de vídeo simplesmente não cabe aqui, pois o protocolo não analisa faltas fora da área. Não houve nenhuma irregularidade após a cobrança de Griezmann. A propósito: assusta que o VAR ainda não tenha sido compreendido, mesmo que seja apenas pela polêmica, pois até para polemizar é preciso ser inteligente. A atuação do sistema na marcação do pênalti de Perisic será discutida com elementos que não importam, pois a decisão foi tomada em conformidade com o que se fez em outras situações semelhantes neste Mundial. O vídeo é uma ferramenta para que árbitros tenham chance de apitar pênaltis com a maior quantidade de informações. Ou não apitá-los. Nestor Pitana não viu o toque de mão do jogador croata, foi alertado, reviu o lance e detectou um pênalti que foi marcado ao longo do torneio. Decisão indiscutivelmente correta, exceto pela ótica da polêmica rasa.

Em desvantagem pela segunda vez na partida, a Croácia se viu novamente diante de uma montanha para escalar. Essa foi sua trajetória em toda a Copa do Mundo, replicada na final com um nível de dificuldade ainda mais rigoroso. Até mesmo um time de coração gigantesco, liderado por dois meio-campistas que honram o jogo de futebol, tem um limite anímico que o impede de seguir se superando. O gol de Pogba significou o fim da competição no minuto 59, essencialmente promovendo o encontro do time mais talentoso do Mundial com o troféu que, com justiça e mérito, viverá em Paris pelos próximos quatro anos e meio. O tempo restante serviu para Mbappé dividir outro registro histórico com Pelé (e alterar a dinâmica do vestiário do Paris Saint-Germain) e Lloris agradecer eternamente pelo fato do jogo estar decidido e sua gafe passar a ser uma lembrança sem importância.

O clube dos campeões mundiais não tem um novo membro, embora os croatas possam exibir suas medalhas com orgulho. Há uma cadeira para Deschamps na mesa de Zagallo e Beckenbauer, e a França avisa, com talento jovem e já consagrado, que possui futebol para bordar novas estrelas em sua camisa. Os franceses se pareceram com vencedores desde o início da caminhada na Rússia. A tormenta que caiu sobre o Luzhniki apenas libertou a irreverência que caracteriza muitos deles, em cenas que provavelmente se repetirão.

GIGANTE

Justíssimo troféu individual para Luka Modric, ainda que não ficasse mal nas mãos de Pogba. O meio-campista croata é um futebolista muito maior do que seu tamanho sugere, um manual de decisões corretas em todas as situações. Como todo jogador desta estirpe, Modric tem preferência pela simplicidade, a ponto de passar a impressão de que seu papel é fácil. É uma qualidade dos que enxergam, dos que pensam, dos que sabem.



MaisRecentes

Terceirão



Continue Lendo

“Algumas tapas”



Continue Lendo

Humanos



Continue Lendo