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A tentação da conversão de situações passageiras em teses definitivas parece irresistível durante a Copa do Mundo, quando a oferta de futebol está praticamente restrita a um torneio que dura um mês e as discussões, sejam onde forem, são dominadas pelo que se vê em um contexto específico. E embora a atual velocidade das coisas seja responsável pela disseminação quase instantânea do que acontece, ainda há quem enxergue a Copa como um grande festival de futebol que, a cada quatro anos, promove um raro encontro de ideias e pessoas que não se conhecem, não se comunicam, não vivem em um ambiente de aprendizado diário de diversas fontes. Como se o jogo não estivesse todos os dias nas telas de televisões, computadores e telefones inteligentes. Como se o fluxo de informações estimulado pelas tecnologias não permitisse que um técnico brasileiro se inteirasse do que um colega esteja fazendo durante os treinamentos, em qualquer parte do mundo.

Ademais, trata-se de um jogo que tem vida e vontades próprias, caracterizado por caprichos que determinam a forma como jogadores, treinadores e equipes serão percebidos para sempre, sem que se considere o instante em que a “escolha” entre tantos destinos diferentes foi feita, por vezes, pelo acaso. Neste aspecto, uma frase de Xavi Hernández, campeão do mundo com a Espanha em 2010 apresenta uma verdade do futebol que precisa ser relembrada. Em entrevista ao diário argentino La Nacion em maio deste ano, o meia espanhol disse que “se Robben faz o gol que Casillas defendeu com o pé, estaríamos falando que a Espanha não ganha nada. Uma final é uma moeda ao ar, cara ou coroa. É muito fina a linha entre o triunfo e a derrota”, referindo-se ao lance no minuto 61 da decisão contra a Holanda, quando o placar em Johanesburgo estava em zero a zero.

A partir das oitavas de final, a Copa do Mundo leva ao extremo o que se chama de “futebol de nocaute”. Não é correto chamar de “mata-mata”, pois são encontros eliminatórios em que uma decisão infeliz tem efeitos amplificados pela importância da ocasião. A única competição de clubes disputada com margem de erro tão pequena é o Mundial da Fifa, de modo que o aspecto mental submete jogadores a situações que não são comuns. A ênfase na capacidade defensiva revela uma característica humana quando o precipício está tão próximo, exacerbada, nesta Copa, pela ausência de uma seleção que seja claramente superior às outras. Quanto a padrões e modelos, como moldes para descrições de jogadores e equipes como determinantes para o futuro, melhor ler e reler o aviso de Tostão: “se houvesse outro Mundial daqui a seis meses, com os mesmos atletas e confrontos, as atuações e resultados seriam diferentes”. Provavelmente nem seriam necessários seis meses.

Esta não foi a Copa do contragolpe, ou da bola parada, ou da transição. Nem a Copa do volante corpulento, ou da linha de cinco, ou do pivô. Se algo, foi a Copa da precipitação, da dificuldade de entender esse contexto único, efêmero e incomparável, do impulso pela fabricação de rótulos que não estarão vivos na semana que vem. É uma questão de processamento. Em pleno 2018, na era da informação de grande velocidade, o futebol merece mais calma e, acima de tudo, mais prazer.

A FINAL

A Croácia na final não é uma história de planejamento, mas um acontecimento do futebol. Já houve outros, em cenários menos valiosos, que não foram capazes do último passo. Mas poucas coisas são mais perigosas do que um time que olha para onde está e nota que não há nada que o amedronte, pois a simples sobrevivência o libertou de todas as pressões. A França é mais equipe, tem mais técnica e mais argumentos para aplicar ao jogo o que lhe favorece, mas carrega toda a responsabilidade de sair de Moscou com o troféu nas mãos.



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