Chefia



Durante o reinado de Ricardo Teixeira, Sebastião Lazaroni, Carlos Alberto Parreira, Mário Jorge Lobo Zagallo, Luiz Felipe Scolari e Dunga dirigiram a seleção brasileira em Copas do Mundo. Américo Faria e Zico (apenas em 1998, na França) atuaram como supervisores da comissão técnica. Em 2014, no Brasil, Parreira foi coordenador-técnico de Scolari, com a confederação sob ordens de Marco Polo Marin (ou José Maria Del Nero, como queira). De algum modo, a narrativa de que Tite manda no departamento de seleções tem ganhado tração nos últimos dias, com a justificativa de que o treinador escolheu Edu Gaspar para ocupar um cargo acima do seu. É uma espécie de complemento à tese do líder religioso que comandou a seleção rezando missas nas entrevistas coletivas, outro ângulo intrigante usado como munição desde que a Bélgica eliminou o Brasil.

Do ponto de vista hierárquico, obviamente não faz sentido que um funcionário determine a quem deve responder. Mas convém retornar ao momento em que Del Nero decidiu trocar Dunga por Tite, em junho de 2016, para entender o contexto da situação. O então presidente da CBF lidava com as investigações da Justiça dos Estados Unidos que terminariam por bani-lo do futebol pela Fifa. Questionava-se até a condição moral do cartola para tomar decisões sobre os rumos da seleção brasileira, quando o nome de Tite, na prática, não era uma questão de escolha. Não é exagero dizer que o técnico do Corinthians foi “eleito” pela opinião pública e pelo ambiente do futebol no país, quase em aclamação. Quanto a Del Nero, a posição era tão delicada que ele foi obrigado a recorrer a um técnico que tinha assinado um manifesto pedindo sua renúncia.

O coordenador de Dunga era Gilmar Rinaldi, também demitido após a eliminação na Copa América do Centenário. Gaspar foi um pedido de Tite, que levou para a seleção a mesma equipe de trabalho que tinha ao seu redor no Corinthians. Pergunta: estivesse você na situação do técnico, o que faria? Ao entrar em um território desconhecido e reconhecidamente contaminado pela política do futebol, deixaria passar a oportunidade de montar um núcleo com o qual já estava habituado? Permitiria a um dirigente acusado de corrupção que determinasse com quem você trabalharia diretamente? Entre os reparos que podem ser apontados no trabalho da comissão técnica na Copa da Rússia, o fato de Tite “não ter um chefe” é desimportante, especialmente à luz do segundo tempo no jogo da eliminação ou ao gol acidental que determinou tanta coisa em campo e no resultado. Como a Bélgica descobriu alguns dias depois, o gol de escanteio na primeira trave lhe dá, mas também lhe tira.

O atual presidente da CBF é o coronel Nunes, capaz de trolar a eleição da sede da Copa do Mundo de 2026. Em abril será Rogério Caboclo, preferência de Del Nero, em articulação feita no período em que estava proibido de se envolver com decisões na confederação. Dos anteriores, há um banido, um aguardando sentença nos Estados Unidos e um vivendo com restrições de liberdade. Se fosse verdade que quem dá as ordens no edifício José Maria Marin é Tite, você o trocaria por um cartola?



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