Diagnóstico



Num ambiente de futebol em que bruxas precisam existir, mesmo que tenham de ser inventadas, nada mais natural que a autópsia de uma eliminação seja caracterizada pelo rancor. O que fazer com o técnico da seleção brasileira – em si uma pergunta habitual, porém desnecessária neste caso – se torna um debate envenenado pela arrogância daqueles que julgam conhecer o processo de montagem de equipes com mais profundidade, estimulados pelos posicionamentos inflamados dos que apostaram na derrota por pura agenda particular. Até um certo desinteresse anterior pela seleção brasileira se converte em posturas fortes, alarmadas, curiosas pela falta de indignação, em que os incômodos pessoais se revelam em toda sua glória infame. É hora de infligir punição.

E nada é proibido. O jeito de falar vira combustível para antipatia, a identificação com um clube é prova de malfeitos, e a narrativa de uma personalidade venerada com fervor religioso – fantasia criada não se sabe onde, e utilizada unicamente para a crítica pela crítica – é uma ferramenta para detectar soberba. É como se um dunguismo latente estivesse à espera do momento apropriado para aliviar suas mágoas, pois até a situação em que a seleção se encontrava quando Tite assumiu é convenientemente esquecida para fustigá-lo. Eliminada pelo Peru na Copa América, em sexto lugar nas Eliminatórias… mas se a régua puder ser baixada a ponto de nivelar resultados e igualar capacidades, a missão estará cumprida e o fígado, em paz momentânea.

Este é o momento sublime para professores autodenominados, que da altura de um púlpito invisível pregam para uma audiência de papagaios adestrados a se relacionar com o futebol da maneira mais vil que existe, baseada em implicância e animosidade, para depois se utilizar deste mesmo estado de coisas. No país dos milhões de técnicos, seria ao menos respeitoso que o trabalho de treinadores fosse compreendido em todos os seus aspectos, não apenas avaliado à distância conforme as simpatias de cada um. Mas há quem pense que todos são igualmente ruins, o que justifica o carrossel de cabeças e os recomeços em sequência, já que a “amarelinha” foi abençoada com o direito divino aos títulos mundiais. Não interessa que o desembarque no Brasil tenha sido caloroso, aqui se distribui culpa e se convive com ela.

Agora se absorve o “choque” da hierarquia das seleções europeias, como se fosse um fenômeno novo e repentino. No processo, não se compreende que o Brasil outra vez foi eliminado da Copa do Mundo, mas, contra a Bélgica, competiu em igualdade de forças com uma equipe que não deve nada a nenhuma outra, e que essa é a parte boa da história, não a ruim. Também se esquece que a seleção brasileira chegou a essa condição após um período de menos de dois anos, o que deveria ser o bastante para afastar qualquer possibilidade de questionamento sobre a sequência do trabalho e o que deve ser feito no próximo ciclo de Copa.

Em nenhum lugar onde o futebol é tratado com seriedade haveria dúvida sobre a manutenção de um técnico como Tite. A CBF dos presidentes presos, investigados, banidos e escondidos já deveria ter se manifestado. Se os políticos do esporte que transitam pelos gabinetes ainda não sabem como proceder neste caso, basta recorrer ao diagnóstico mais valioso de todos: o dos jogadores. Eles não criam bruxas e nem se deixam contaminar pelo rancor.

PELO ALTO

A seleção inglesa dirigida por Gareth Southgate apresenta um jogo que quebra padrões tradicionais do país, mas segue utilizando com sucesso um recurso característico: a bola parada aérea. Reportagens publicadas em meios de comunicação ingleses relatam o interesse de Southgate pelos esquemas de bloqueio usados pelos times da NBA para liberar jogadores. Na quarta-feira, contra a Croácia, preste atenção em como os ingleses se movimentam na área adversária.



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