Plano B?



Considerando a maneira de jogar da seleção brasileira sob o comando de Tite, desde a vitória sobre o Equador em setembro de 2016, se fosse oferecida ao técnico a oportunidade de determinar como se desenrolariam os sete jogos desta Copa, a resposta muito provavelmente seria uma só: estabelecimento de superioridade por intermédio de uma saída de bola controlada, desacelerada, e dos mecanismos ofensivos que privilegiam as associações pelo lado esquerdo, mas não só por ali; primeiro gol; aproveitamento do espaço em decorrência do avanço do adversário, em jogo mais direto com utilização dos homens de velocidade; segundo gol; manutenção do controle com solidez defensiva; boa noite e até a próxima. Assim o Brasil se preparou para o Mundial, como uma proposição de futebol definida e adequada às características dos jogadores escolhidos.

Em dois encontros na fase de grupos, tal cenário pôde ser observado por, no máximo, vinte minutos: o trecho inicial da estreia, contra a Suíça, até pouco depois do gol de Philippe Coutinho. Dali em diante, e em toda a duração da partida contra a Costa Rica, a seleção brasileira não conseguiu – ou não tentou – jogar a seu modo. Os quatro pontos somados e a boa perspectiva de classificação para as oitavas de final não devem se antecipar à questão de ideia de jogo, pois é a ela que times bem-sucedidos se agarram nos momentos de maior exigência. É possível, como se viu ontem, derrotar um time inferior ao final de um segundo tempo de pressão absoluta, mesmo levando em conta a confusão notável antes do intervalo. O problema está em investir nesse expediente contra concorrentes mais capazes.

A partir dos vinte e cinco minutos, foi fácil perceber a seleção estabelecida inteiramente no campo de ataque, com zagueiros no círculo central, laterais esticando o campo ao máximo e homens entre as linhas de cinco e quatro defensores adversários. O que não se notou foram os comportamentos necessários para que esse tipo de posicionamento tenha efeito, principalmente porque os jogadores não estão habituados a eles. Com a tentativa do passe infiltrado sempre negada, a bola circulou primordialmente até as laterais da área, e dali para cruzamentos feitos sob medida para a defesa da Costa Rica. O Brasil se mostrou fora de seu elemento e, como quase sempre acontece nesses casos, o resultado não foi bom. O único sinal positivo foi o fato de ter evitado riscos defensivos, mas esse não é um balanço agradável de um jogo contra um rival quase que exclusivamente preparado para o zero a zero.

Aqui cabe um comentário sobre repertório: um dos mantras da análise superficial de equipes é o pedido constante de um “plano B”, uma “outra forma de jogar”. Brasil x Costa Rica ilustra o debate, mostrando o que se passa quando uma seleção tenta acionar uma segunda personalidade após menos de dois anos de caminhada: a total despersonalização. Seria ótimo que o tempo permitisse a introdução, a compreensão e a aplicação de diferentes modelos, algo que não está ao alcance da maioria até mesmo no futebol de clubes, com técnicos de longa permanência. Em seleções – a Alemanha, momentaneamente em apuros, é exceção – nacionais, está claro que o aprimoramento de um modelo, com as devidas variações, é o caminho a seguir.

Porque a seleção se pôs a praticar um jogo que não possui, e com os intérpretes errados. Fernandinho seria mais indicado para organizar a saída da bola, Renato Augusto para movê-la, Douglas Costa – desde o início – para causar danos. O sacrifício de alguns jogadores adaptados ao modelo trabalhado desde as Eliminatórias foi tão evidente quanto o descontrole (no bom sentido) que se apoderou do jogo na segunda parte, quando Tite lançou mão de mexidas ultra-ofensivas que terminaram por encontrar os gols da vitória. Era o que o Brasil precisava, mas não desse jeito, não a esse custo. O time é forte o suficiente para vencer a seu modo.



MaisRecentes

Novo



Continue Lendo

Virtual



Continue Lendo

Falante



Continue Lendo