Segunda vez



Na sexta-feira, quando a crise da demissão de Julen Lopetegui estava instalada na concentração da Espanha, Gerard Piqué foi ao Twitter para publicar uma mensagem de otimismo: “Universidade de Michigan. Basquete. 1989. Campeã da NCAA. Não seria a primeira vez que acontece. Todos unidos, agora mais do que nunca”, escreveu. Sabe-se do interesse do zagueiro do Barcelona por outros esportes, especialmente o ambiente americano, mas essa profundidade de detalhe sugere que o episódio lhe foi relatado por alguém muito perspicaz. O que aconteceu com o time de basquete masculino de Michigan naquela temporada pode ser relacionado ao que a seleção espanhola pretende fazer nesta Copa do Mundo.

William Frieder foi o técnico da universidade durante a temporada de 1989. Pouco antes da fase de jogos eliminatórios (chamada de NCAA Tournament), ele anunciou que se transferiria para a Universidade de Arizona State no ano seguinte, o que levou à sua demissão imediata, por ordem do diretor atlético da instituição. Comandado pelo assistente Steve Fisher, o time de Michigan venceu seis jogos e conquistou o único título nacional de sua história. A mensagem de Piqué recupera um caso de sucesso em uma situação de emergência, uma improvisação na posição de liderança em esportes coletivos, algo que não se encontra nos manuais de direção de equipes às vésperas de competições de máxima importância. É um registro histórico que atua como inspiração.

Na estreia na Copa, contra Portugal, os espanhóis conseguiram virar um encontro em que estiveram perdendo duas vezes, mas uma falta do próprio Piqué em Cristiano Ronaldo – além dos três gols, em uma noite tão espetacular que fica difícil encontrar uma atuação superior em sua brilhante trajetória – abriu a porta para um empate tardio que certamente não era como o time dirigido por Fernando Hierro pretendia abrir sua campanha. A demonstração de capacidade de reação é um indicador de bom momento anímico, o que pode dizer muito a respeito de como o elenco absorveu o problema com Lopetegui, que, em casa, viu um jogo dominado por figuras que terão papéis em sua rotina como técnico do Real Madrid: Ronaldo à parte, o capitão de clube e seleção Sérgio Ramos e o “inimigo” Diego Costa, atacante do rival Atlético, se destacaram em Sochi.

Cristiano Ronaldo teve o tipo de atuação que soluciona qualquer crise de comando e ainda obriga a acreditar que nada é impossível. Portugal teve apenas 39% (índice da Fifa) da bola, mas a impressão que ficou é que tudo passou pelo jogo de seu maior astro. Os gols – mesmo que os dois primeiros tenham sido frutos de um pênalti e de uma falha desconcertante de De Gea – ficam expostos na vitrine, mas não se viu uma decisão equivocada, um movimento que não tenha sido exatamente o que o time precisava no momento. Já no final, com o placar em 3 x 2 para a Espanha e o tempo se esvaindo, Ronaldo cobrou a falta que sofreu de Piqué com a confiança de quem já tinha visto o jogo e sabia como a noite de ontem seria lembrada na história dos Mundiais. Brutal.

Àquela altura, a Espanha escondia a bola com a exuberância técnica que a distingue nesta Copa, mas viveu sob extremo perigo em contra-ataques que poderiam ter comprometido qualquer ideia de resultado que não assombrasse o sono em Krasnodar, base da equipe. O empate não representa nenhum drama, mas as circunstâncias distribuem sensações diferentes para cada lado, também por causa da relação de forças entre os times. Ronaldo recebeu um presente de De Gea e um convite de Piqué para se apoderar do primeiro grande encontro do Mundial da Rússia, e mesmo assim a Espanha por pouco não venceu. Esse parece o ângulo mais favorável para Hierro e os jogadores que ele não imaginava ter de liderar, além de um apropriado tweet sobre não ser a primeira vez.



MaisRecentes

O início



Continue Lendo

Desconforto



Continue Lendo

Irmãos



Continue Lendo